O poder financeiro, que ora nos escraviza, através da moral, da religião e do entretenimento, recorre a inúmeros clichês emocionais coletivos com a intenção de que esqueçamos e/ou abafemos os nossos individuais, genuínos e saudáveis sentimentos. Desconectadas dos PRÓPRIOS sentimentos as pessoas perdem a criatividade existencial mais ampla (aquela capaz de gerar novas opções no sistema de vida social) e assim não conseguem pensar de forma prática em nada novo. Mas conectadas a esses padrões sentimentais impostos, essa criatividade limitada permite apenas trocar as mesmas peças de lugar e tudo fica organicamente como estava.
Quem se emociona mais com clichês sentimentais do que com os próprios sentimentos, está longe do afeto saudável. Quem reage a clichês alimenta clichês e não sentimentos. Quem percebe clichês, os evita e vive seus próprios sentimentos.

Mas o que são clichês sentimentais?

São sentimentos feitos para parecerem seus, vêm na caixinha. Como brindes promocionais padronizados que dão a falsa sensação de integração. Sentindo aquilo, você está incluído.

Alguns tipos de clichês sentimentais:
“Sangue do meu sangue”, “família é tudo”, “meu time é campeão”,”dia da criança”, “dia dos namorados”, o “tsunami” da comoção coletiva do natal, “dia das mães”, dos pais, “hino nacional”, “todo mundo viajou e eu não=depressão”, “todo mundo está triste por que aconteceu tal coisa, eu também tenho que ficar triste, senão me sinto excluído e deprimo”.

Ora, você já foi excluído há muito tempo, só não percebeu ou se esqueceu.

Não é o SEU sentimento que interessa, o que querem é que você sinta o que todos (por coerção) estão sentindo. Sentimento com hora marcada!… não é sentimento, é sensação, comoção imposta. E, nesse caso, quando você entra na comoção, não é com o sentimento imposto, ele é só o disparador. É com sua carga de sentimentos verdadeiros reprimidos, que encontram aí uma  válvula de escape. Transferência. Assim você fica achando que aquele sentimento/clichê imposto  é seu. E o seu mesmo fica lá guardado, sem contato direto.

Achando que está se comovendo com uma noticia de telejornal, a pessoa está, na verdade, se comovendo com seus próprios sentimentos represados. Eles usam os seus sentimentos guardados e não realizados, em favor da comoção social, através da transferência. Sempre com interesses lucrativos, consumo. Por exemplo: O “eu te amo” que você não falou, sai na lágrima ao ver a comédia romântica que você alugou.
Quando você entra em comoção social, está sendo conivente com o roubo da sua energia.

A maior doença aí é que, assim a pessoa não “vê”, em si, a origem verdadeira da comoção, não percebe o teor das próprias emoções e nem dos seus próprios sentimentos e, assim, distante léguas de si mesmo, nunca saberá lidar com eles. Além de permanecer cativo.

A pessoa fica a mercê dos sentimentos impostos por coerção, para servir à comoção social. Coerção porque se alguém ousar não participar, não sentir ou, ao menos, não fingir que está sentindo-se comovido, é moralmente apedrejado. Por exemplo: “Mas como você não vai dar um presente para a sua namorada no dia 12 de junho???? Você é um desalmado!!!!!”
A postura socialmente induzida é: Ninguém está interessado no que você sente, mas sim se você está conivente com e participativo em relação à comoção coletiva.

O seu sentimento pessoal, que é único (e, se dividido com os outros, configuraria uma troca extremamente criativa e saudável, porém perigosa para o poder) é propositalmente desqualificado para que você o sufoque, a não ser que o seu sentimento seja tão medíocre quanto o sentimentalismo barato e socialmente imposto.
Fica assim: “O seu indivíduo não nos interessa, mas sim a sua energia a favor dos clichês que impomos coletivamente. Sinta o que todos devem sentir e você será bem vindo, senão você passa a não existir para nós”.

Bizarro, medíocre, doentio e desumano.

Seria interessante criarmos o “Dia da Declaração dos Sentimentos Genuínos de Cada Indivíduo”. A data saudável é: TODOS OS DIAS. Sem coerção e nem com o fim de criar mais uma comoção social. Mas voluntário, espontâneo e, principalmente, bem recebido por todos de todos.

Foco No Afeto!