Num diálogo entre pessoas (ao vivo, em vídeo ou por telefone) está sempre evidente, bem evidente, a verdade que as palavras nem sempre revelam. Todo mundo, eu disse TODO MUNDO percebe, sente. Alguns estudiosos e/ou muito intuitivos são capazes de decodificá-la. Estes, inicialmente, se decepcionam com esse fato, o da mentira sistemática das palavras e da verdade revelada pelas expressões faciais, corporais e pela “música” da voz falada NO MESMO ATO. Os nem estudiosos e nem tão intuitivos TAMBÉM sentem, só não conseguem decodificar. Percebem a não sinceridade e calam-se por não poderem comporvá-la tecnicamente. Não raro, a reação é afastarem-se um tanto do convívio social por não conseguirem conviver com tanta mentira verbal e tantas verdades (NEM SEMPRE agradáveis) corporalmente e “musicalmente” expressas. Esse afastamento não pode ser confundido com o sociopatia. Muito pelo contrário, é medo, é defesa. Essas pessoas são dotadas de capacidade afetiva, de sentimento e é por isso que se afastam. Falta-lhes apenas um certo amadurecimento perceptivo (consciência) para compreenderem que este formato de relação não é o nosso natural. É um recurso, também de defesa, justamente por não estarmos nos relacionando de forma natural. Mas o que seria esse formato natural? Relacionamento digno e generoso cuja intensidade está baseada no grau de afinidade. A humanidade é uma espécie relacional, nós SOMOS uma relação composta de indivíduos e não apenas indivíduos que se relacionam. A nossa excelência relacional está no cooperativismo e não na competição. Quando percebemos isso, automaticamente passamos a ter profunda compaixão pela dificuldade relacional que combina verdade e mentira num único ato. São seres em conflito porque nasceram e foram feitos para a paz mas estão vivendo em ambiente de guerra. Não são sociopatas. Os sociopatas não apresentam conflito porque não tem sentimentos, têm apenas desejo de poder, prazer e manipulação. Já quem entra em conflito apresenta sentimento, sofre e isso é MUITO saudável. É a porta de acesso para a evolução da consciência. Cada vez que vemos a mentira expressa na face e/ou na voz alheia, tenhamos compaixão. Estamos diante de alguém adoecido. No nos assustemos se esse alguém estiver “lá”, do outro lado do espelho. Ao menos nas relaçoes pessoais, visto que as profissionais estão estruturadas estritamente no pensamento de guerra, tentemos acolher o “mentiroso” não sociopata, oferecê-lo a nossa confiança, atenuar-lhe o fardo desse conflito: “se revelo meus sentimentos me vulnerabilizo, se os escondo adoeço”. Isso cada um de nós pode fazer com o próximo mais próximo, sempre levando em conta o grau de afinidade para que haja sucesso na comunhão possível e necessária. Quando a mentira é usada para esconder uma fraqueza ou limitação, é medo e a pessoa é capaz de empatia, vale acolhê-la. Quando uma mentira é usada para manipulação e obtenção de poder, é sociopatia e a pessoa nem faz idéia do que seja empatia, só vê a sí próprio. Perigo. É importante observar que algumas pessoas, por fraqueza, se vêem “obrigadas” a assumirem o comportamento sociopata sem o serem, apenas para sobreviverem. Esses não vão muito longe porque ou adoecem ou são notados pelo conflito em seus atos e atitudes. Ninguém consegue fingir não sentimento. Em todos os casos, se mantivermos o nosso foco no afeto, tudo isso fica mais fácil e simples.