É comum estranharmos o fato de que:

“Podemos ajudar muito o outro com atos, conselhos, com a simples presença pacífica, dando um “colo”, ouvindo, mas não conseguirmos fazer isso com nós mesmos.”

Esse fato gerou e gera grandes mal entendidos do tipo:

“Como é que alguém pode ajudar os outros se não é capaz de resolver suas próprias travas e encrencas?”.

“Como é que um fumante se arroga a dar conselhos de como parar de fumar?”.

“Como é que um ansioso pode ensinar relaxamento? Isso não pode funcionar”.

Mas pode sim e, muitas vezes, funciona.

O que nos leva a ter esse tipo de preconceito é:

1 Confundir a mensagem com o mensageiro.

2 Confundir informação e cultura. Saber é uma coisa (informação). Fazer é outra coisa (cultura).

3 Não levarmos em conta o fato de que algumas pessoas têm uma percepção aguçada dos outros e podem usar isso de forma generosa e construtiva.

4 O conceito errôneo de que: se alguém vê, aponta e ajuda a resolver um problema alheio é capaz de fazer isso consigo mesmo.

A crendice (diria até o mito) de que: “alguém que não esteja “resolvido” não pode ajudar outra pessoa com o mesmo problema” vem do fato de estarmos ainda, pré-historicamente, na obrigação social de vendermos uma imagem de perfeição para podermos criar credibilidade.
A credibilidade depende da imagem criada e, às vezes, o mais importante, que é a capacidade de ajudar, passa despercebida.

Essa obrigação de imagem perfeita nasce do fato de que estamos em guerra, desconfiados uns dos outros e, por isso, a generosidade autêntica, uma de nossas vocações naturais, não existe ou não é possível.
Ou, se é possível, quase ninguém a pratica sem interesses ocultos.

Em outros capítulos já disse, citando Cleofas Uchoa de diversas formas, que nós humanos somos uma relação. A humanidade é muito mais uma relação composta de indivíduos do que de indivíduos que exercem relações.

Para que sejamos uma relação, a natureza nos fez interdependentes em diversos aspectos. Um deles é que: EU POSSO TE VER mas NÃO POSSO ME VER.

Você depende muito de mim para se perceber e se entender (ou se equivocar e se desentender, de acordo com a qualidade da nossa relação) e eu de você para o mesmo.

Se a qualidade da nossa relação é boa, se você tem uma boa percepção de mim, se você for uma pessoa generosa, se eu for receptivo a você, mesmo que na hora eu não tenha a disposição para colocar em prática o que você me sugerir, então você pode me ajudar. Sim, porque, no mínimo, uma semente é plantada e, um dia, a “planta” nasce.
Mesmo que você tenha o MESMO problema que eu, ainda não resolvido em você, isto não o impossibilita de me ajudar.

Para resolver esse problema em você, você precisa DO OUTRO, que até pode ser EU MESMO.

Além da predisposição do ajudado, o que faz com que uma pessoa possa ajudar o outro, o que a habilita a isso, é a atitude generosa associada à percepção que tem em relação ao outro, e não o simples fato de ter seus próprios problemas resolvidos.

Seguem alguns exemplos que contam o que NÃO é ajuda autenticamente generosa. Todos sabemos desses instrumentos malditos e tememos que os outros os usem conosco.

• Alguém pode ter a maioria das suas questões resolvidas e não ser capaz de ajudar ninguém, simplesmente por falta de percepção (vivência) e/ou vontade.

• Alguém pode ter uma boa percepção do outro, adquirida, por exemplo, pelo medo, e usá-la como instrumento de barganha social mascarada de generosidade.

• Alguém pode ter uma postura de generoso sem que exerça isso nunca. Fica como uma eterna promessa sedutora.

• Alguém pode mostrar que sabe como ajudar o outro, “vender” pessoalmente caro essa ajuda e nunca entregá-la, com o seguinte trato no âmbito do “não dito”: “Seja cativo à minha pessoa que eu vou te ajudando na medida do possível”. Mais conhecido como “vender a alma ao diabo”.

• Alguém pode usar a generosidade “pronta entrega”. Por interesses ocultos, usar a percepção e entregar, em doses controladas, ajudas específicas, com o fim de criar um laço de dependência para tirar proveitos disso.

É muito por isso que desconfiamos de um conselho que venha de alguém que não o pratique. No fundo, é a desconfiança que temos de nós mesmos. Olhe no espelho e responda, com toda a sinceridade (ninguém vai ouvir rsrs) :
“Você nunca usou nenhum desses instrumentos malditos?”. Tememos do outro o que odiamos em nós.

Ninguém é perfeito. Mas mesmo assim, para nos sentir vivos, necessitamos e podemos ajudar uns aos outros.