Pergunta: Arly, minha eterna questão é: até que ponto não ficar com raiva é ser apático? O sangue nas veias, a intensidade devem ser sentidos.

Resposta:

A cada instante devemos ser responsáveis (termos habilidade de resposta às situações) e assertivos. Mas, não raro, a raiva nasce assim: por ingenuidade ou ignorância, deixamos que nos invadam. Quando percebemos já é tarde. Nos invadiram, fizemos papel de bobos, nos desqualificaram, etc.  e nós…deixamos.

Por pura ignorância operacional, a reação automática é ficarmos com raiva do autor externo da invasão, mas, no fundo no fundo, ficamos com ódio de nós mesmos por termos deixado que aquilo acontecesse, ficamos com raiva DO FATO de termos sido ingênuos e ignorantes. Ridículo, como é que eu posso condenar alguém por ignorância? Mas, por CULTURA, fazemos isso com nós mesmos. Nós mesmos nos desqualificamos com essa raiva.

DO OUTRO LADO

Quem invade, invade por hábito, por ignorância ou por maldade. Em qualquer um dos casos a nossa interação, para ser saudável, não poderia ser reativa. Quando somos reativos somos inconscientes, reagimos por memória emocional com cargas não pertinentes a essa situação de agora.

Em geral são TRÊS raivas que tomam conta de nós nesses momentos: Raiva do outro (por ter nos invadido) raiva de si próprios (por termos concedido na invasão) e mais as nossas antigas raivas guardadas não resolvidas.

Precisamos interagir de forma responsável (habilidade de resposta). De forma perceptiva. Perceber o momento, o autor da “invasão”, percebermos o que precisamos fazer, nesta hora, para não sermos invadidos e dar a resposta consciente. ASSERTIVIDADE SEM REATIVIDADE.

Obviamente que junto com esse esforço para a resposta perceptiva, os ditos sentimentos de raiva estarão presentes. O treino é não ouvirmos essa “voz” e continuarmos perceptivos.

São duas coisas que temos que fazer ao mesmo tempo:

1- Buscarmos a percepção e

2- Exercermos a indiferença às próprias raivas enquanto estimulantes de reatividade.

Na medida em que fazemos isso muitas vezes, mais e mais vezes vamos preservando o nosso “território” pessoal e cada vez menos sentindo raiva. A raiva é um alerta vermelho contra invasão do nosso sistema. Se o sistema não é invadido o alarme não toca.

Muita gente tem esse alarme disparado há muitos anos, mas passou a não ouvi-lo, já o associou ao “som ambiente” por não saber o que fazer com ele. Daí quando, numa nova situação de invasão, a pessoa toma contato com o quanto está invadida agora e há muito tempo, SURTA! Vai na jugular do invasor e o mata, quando na verdade, naquele momento específico, um simples “não” resolveria a questão pontual.

É justamente a apatia na hora da invasão é que causa e acumula raivas. A raiva nasce porque eu não soube dizer não na hora e do jeito certo. A raiva é sempre de mim, por que eu não me respeitei.

O que fazer com tanta raiva passada e guardada?

Primeiro é senti-las, na suas reais intensidades e, se possível, detectar as suas origens. Quase sempre isso é muito doloroso, penoso e transtornante, mas É INDISPENSÁVEL. Melhor que seja feito com acompanhamento. Imediatamente em seguida, aceitar a própria falibilidade diante das situações. Acabar de vez com os: “Como eu fui idiota!!!!”, “Eu sou um tonto mesmo!!!!”, “Eu fui um trouxa!!!”, etc.

Aceitar que não há outro jeito de aprender senão errando. É o erro que ensina. Essa percepção e aceitação da minha falibilidade disparam a aceitação da falibilidade do outro e, praticamente, “apaga”, anula, as raivas. A isso se dá o nome de perdão. E é sempre a si mesmo e aos outros.

O que fazer para não criar novas raivas?

Dizer não sempre que necessário, tranquilamente, ou seja, não aceitar invasões e, se elas forem inevitáveis, aceitá-las por decisão consciente, sem conflito. Isso nos torna íntegros (não partidos) e dignos (autoestima em dia).

A grande vantagem que a pessoa leva, se fizer isso, é que terá menos motivos para adoecer.

Como já disse outras vezes: “Sentimento guardado gera doença”.