Entra no palco a pretendente a cantora. Feia, gorda, desengonçada mas muito disposta. Risível.

Claro, ela não tem nenhum dos ingredientes básicos do show business para se tornar uma celebridade na música, ao contrário.

“No mínimo daremos boas risadas” pensamos todos. “Vamos rir um pouco do ridículo que não suportamos em nós mesmos, vamos transferir esse escárnio, essa raiva somada com frustração e desprezo PRA ela. Pra Susan. Ela se dispôs a isso então desçamos o cacete nela. Agora ela é o bode-expiatório da vez”.

Começa a cantar. “Nossa ela tem talento, voz impecável. Meu Deus, como fui injusto, ela não é “EU” lá. A coragem dela vem da convicção no talento enorme que tem”. Choradeira, comoção, arrependimento, compaixão.

Pronto, está realizada, com sucesso, uma grande operação de marketing.

Eles contaram com a nossa péssima auto-estima gerada pelos péssimos valores estéticos (cultivados à exaustão pela própria mídia) seguida do nosso péssimo costume de nos deixarmos reger pelo medo da exposição e nos ocultarmos mediocremente em nossa cela existencial pequeno burguesa.

“Ridículo eu?????? JAMAIS!!!!! Eu tenho brio, amor próprio!!!!!!”

A Susan vai mudar de vida, vai gravar seus discos, fazer seus shows, vai ganhar dinheiro e tomara que isso a faça feliz. Tenho cá minhas dúvidas mas isso deverá acontecer por um tempo, pelo menos.

E nós “Susans Boyles que não nos permitimos uma oportunidade por medo do ridículo“?

Vamos continuar engrossando o coro dos frustrados tirando sarro dos ridículos ou vamos esquecer a palavra ridículo e fazer o que amamos?

A mídia nos impõe uma uma gaiola asfixiante de pre requisitos imbecis para uma vida miseravelmente aceitável.

Se aceitamos estamos INcluidos.

Se não aceitamos viramos EXcluidos.

Susan Boyle foi lá e provou (para nós) que é possível ser alguém reconhecido mesmo estando FORA da jaula (padrões).

E ELES (a própria mídia) se “renderam”, aprovaram para dizer que sempre que alguém tem talento a mídia aceita. (Mentira global)

Foi sim uma grande jogada de marketing.

Parecida com a campanha de lançamento do Mercedes A4 cujo tema era “Você de Mercedes”. Esta frase explicita que, para eles, está claro que você é um bosta e que, sem a “bondade condescendente” deles, jamais andaria em um Mercedes. Mas só desta vez estão fazendo uma concessão, um favor e, graças a isso, você, o bosta, poderá mostrar que é alguém SE ostentando num Mercedes. O Mercedes que é o bom, você é meramente mais um bosta.

Pra eles a sua auto-estima TEM que estar no lixo e se você aceita o jogo, pronto eles estão com poder SOBRE você. A mídia quer você cheio de esperança pela aceitação e, depois de Susan Boyle, muita gente está esperançosa. Mas a mídia não vai consagrar todas as Susans Boyles porque aí seria o talento que passaria a valer e não o poder da mídia.

A mídia não aplaude o que você é mas sim os valores DELA que você decida expressar ou representar. Aí ela, descartavelmente, te consagra.

A Susan canta bem e sabemos que só isso não serve pra mídia, mas serviu sim pra mídia dar o falso recado de que é “boazinha” e consagra o talento.

Eu acredito na Susan porque eu acredito em mim e em todos nós, acho mesmo que ela é feliz com ou sem a mídia E QUE TODOS NÓS TAMBEM POSSAMOS SER.

Só torço muito para que ela não seja esmagada por esse mundo cão e imundo no qual está entrando e continue com a pureza e ingenuidade que fazem dela o grande ser humano que é.

Só a pureza e a ingenuidade podem gerar a entrega.