Íntegra da entrevista dada à Revista UP





UP– Vc acha que é possível uma pessoa ter experiências sexuais (mesmo que seja somente um beijo) com alguém do mesmo sexo sem que precise necessariamente se identificar como “bi” ou homossexual?



ARLY CRAVO– É importante, sim, viver EXPERIÊNCIAS AFETIVAS SEM RÓTULO. A identidade é desnecessária, serve sempre para restringir o exercício do afeto. Sentiu, vive e ponto.

Rótulo é coisa de prateleira, de consumo. Afeto não é mercadoria. E quando é tratado como tal, diminui, restringe e até mesmo pode deixar de ser afeto para dar lugar ao exercício de uma prática mecânica determinada pelo rótulo de uma tribo ou coisa que o valha. Afeto! Isso é importante.



UP– O termo “heteroflexível” surgiu para determinar que alguns indivíduos sentem vontade em explorar certos momentos de homossexualidade, seja para se conhecer melhor ou por buscar um prazer momentâneo, sem que isso implicasse num compromisso com certas identificações sexuais e outras tantas rotulações. Vc considera isso é válido em algum sentido ou é apenas uma moda passageira?



ARLY CRAVO-Vejo que “heteroflexível” é um rótulo cuja finalidade é libertar o “heteroflexível”dos outros rótulos. Rótulos são como credenciais para alguém mudar de espaço com a devida autorização social. Se alguém procura aprovação social para o que faz com o afeto, NUNCA vai conseguir.

A sociedade não quer nem saber de afeto, quer saber de formatos que ela possa regulamentar.

Até porque é impossível regulamentar todas as formas de exercício afetivo.

Forma de exercício de afeto é questão única, de cada um.

“Heteroflexível” é mais um rótulo, e por isso mesmo, restringente. Alguém pode se declarar “Heteroflexível”, mas por quanto tempo? E se um dia acordar assexuado? E se um dia se sentir só hétero ? Não fica mais simples se sentir livre para fazer o que sente, a qualquer hora?

O legal é a liberdade de exercício afetivo em cada momento e da forma como se apresenta.

Não precisa pedir a benção pra sociedade, ela não entende de afeto. Há uns 8 anos criei uma frase especialmente para isso:

“O maior desserviço que a mídia presta não é a banalização do sexo, é a exclusão do afeto”. Está no meu livro de frases Senhas http://www.arlycardoso.com/test1.html



UP – Será que essa atitude é uma novidade? (Como se antes do termo existir não existisse a experiência em si.)



ARLY CRAVO– Certamente que a necessidade de troca afetiva com esse formato sempre existiu no decorrer da história.

Para citar 2 exemplos:

Na antiga Grécia era assim: Prevalecia homem com homem, daí quando era preciso gerar mais um cidadão, escolhiam uma mulher para a procriação. É uma forma de “heteroflexibilidade”.

No Hawaí, antes da invasão americana, era comum a “heteroflexibilidade”, mas com mais liberdade.

Na minha opinião, é claro que esse sentimento não é novidade, esse desejo não é novo, deve ser tão velho quanto

a humanidade. Mas, quando em sociedade, sempre tem um “pedágio” para se viver os sentimentos, e os preços variam muito.

Por isso sou a favor de que se viva os sentimentos e afetos nos diversos formatos em que se apresentarem À PARTE da sociedade. É a dois, três, sem rótulos nem tribos.



UP – Há um pré-conceito muito difundido popularmente que diz que “bi” é uma pessoa mal resolvida. Esse mesmo tipo de pensamento costuma advertir também que “heteroflex” não existe, ou seja, que alguém que age assim é gay e pronto. Você acha que isso tudo confunde e atrapalha mais do que ajuda as pessoas a lidar com sua sexualidade? Qual seria uma boa maneira de rebater a esse tipo de crítica?


ARLY CRAVO– Claro que confunde e atrapalha e muito. Quando eu julgo o sentimento do outro, estou falando DE MIM.

É ridículo qualquer julgamento. Se alguém me diz que é “bi” eu só lamento pelo fato desse alguém estar se impondo um rótulo,

mas acredito e respeito. É uma questão SÓ dele. Eu posso até ter a impressão pessoal de que ele é gay ou hétero, mas

é só a minha impressão, não vale como verdade absoluta.



UP– Flexibilidade no campo sexual é sinônimo de falta de reflexão íntima?


ARLY CRAVO -Não necessariamente. Se alguém se impõe esse ou qualquer outro rótulo é por falta de reflexão mesmo.

Agora a flexibilidade como característica, condição, direção sexual é o “jeito” da pessoa e pronto.

Inflexibilidade em qualquer campo é que é sinônimo de falta de reflexão. Repito, isso não é o importante. Nas relações, a forma tanto faz, o importante é o afeto.



UP – Uma pessoa se autodenominaria “hetero” ou “homo” flex porque ainda não sabe muito bem o que quer da vida sexual?


ARLY CRAVO – Poder ser, depende do caso, mas não vale como regra. Quero crer que, na melhor das hipóteses, ela se denomina isso ou aquilo porque, em determinado momento, se SENTE assim. Na pior das hipóteses é porque está comprometida com uma tribo e TEM que se declarar assim.

Prefiro a pessoa que não pensa em rótulo. Faz o que sente.



UP– As pequenas experiências devem contar e assim se classificar o todo pela parte? (as exceções criariam as regras?)


ARLY CRAVO -Por esse raciocínio contabilista diríamos:

Se o rapaz transou com rapaz 5 vezes, transou com mulheres 15 vezes e se masturbou 80 vezes ele é:

5% Gay

15% Hétero e

80% Onanista

Pessoalmente, acho ridícula essa contabilidade.

As experiências, PEQUENAS OU GRANDES, não contam e muito menos devem ser classificadas. Em geral, por medo, as pessoas não se dão a liberdade de exercerem a sexualidade tal como ela se apresenta em dado momento. O rapaz do exemplo pode um dia se descobrir assexuado. Pode se descobrir hétero e desprezar a masturbação, e pode se perceber com todas essas formas de expressão sexuais/afetivas atuantes.

E aí, o que a gente faz com a planilha da contabilidade? Joga no lixo. Até porque, em consultório, a gente descobre que tem gente que está homo por engano, tem gente que está hétero por engano, tem gente que está assexuada por engano, e assim por diante. As variáveis são quase infinitas, seria impossível classificar sem ser ridiculamente curto.

Seria o mesmo absurdo que dizer que o ar que respiramos tem só oxigênio sempre.

Não há regras. O que dá pra dizer é que existem diversas expressões sexuais, inclassificáveis.

Esse negócio de prever comportamento, classificar, enquadrar, normatizar é coisa de gente travada afetivamente, gente que quer controlar, e o melhor do afeto e do sexo é que

“na saúde” não tem controle, ele flui, acontece.



UP – Você acredita que a mídia influencia a cabeça desses jovens e poderia ter sido a “culpada” por cunhar termos para tais atitudes? O que vc acha de um “hino” para os heteroflex como a canção “I kissed a girl” da cantora Katy Perry? (Música que fala da experiência de uma mulher beijar outra para ver como que é).


ARLY CRAVO –Talvez, por ingenuidade, eu até acredite que o artista criou uma musica dessas falando de sentimentos e afetos, mas com toda certeza a midia rotula, põe na prateleira da tribo que compra e cria um consumo dirigido.

Sentimento ou afeto que cai na mão da mídia apodrece. (vou botar essa frase no meu livro rs)



UP– Se vc tiver mais alguma consideração a fazer sobre o assunto, por favor fique à vontade!


ARLY CRAVO -Pessoas queridas!

A única, única coisa mesmo que interessa e que acrescenta é o afeto que você sente e troca numa relação digna. Seja por quem for e como for.

Rótulo não traz felicidade, afasta. Rotulo te dá segurança social mas é uma jaula existencial.Você fica sequestrado por ele.

Sejamos nós!

Isso basta: você e seu afeto em relações dignas.