Foi um periodo de mais ou menos tres anos em que passei bem próximo à doutrina de
Kardec (conhecido como Kardecismo ou espiritismo) que me trouxe o conhecimento da humildade, nem sempre bem exercida por mim. Eu tinha 21 anos.

Mais ainda, a proximidade de um grande amigo com quem tive a oportunidade de aprofundar esse conhecimento através de longas conversas e discussões.

Mais ainda, as minhas tragicômicas tentativas de colocar em prática essa “humildade”, que, por erro de leitura da minha parte, era bem diferente da proposta por Kardec.

A minha humildade estava mais para anulação e subserviência do que para qualquer outra coisa. Coisas de quem teve pai autoritário.

Enfim, esse comportamento, a que chamei de humildade por alguns anos, acabou por me trazer um benefício: Eu aprendi a ouvir. Existem formas mais confortáveis, mas esta foi a minha. O suficiente para fazer disso um jeito de perceber o outro. Me abster, um tanto, da compulsiva subjetividade que faz com que julguemos o outro por nós mesmos.

Como sempre fui muito ávido por conhecimento, dos 18 aos 35 anos era um verdadeiro rato de biblioteca. Nunca consegui estudar em escolas (aos 50 descobri porque: dislexia). A minha saída foi correr atrás de professores, aulas particulares esporádicas intercaladas por períodos de imersão em livros. Todos riscados, com sumários particulares, lidos e re-lidos. Em alguns momentos, tenho certeza de que fui um estorvo para alguns de meus professores.

Foi assim que estudei filosofia, música, pintura, psicologia (melhor dizer comportamento humano) comunicação e tecnologia musical, com experts no assunto.

Ao aprender cada uma dessas coisas, com os devidos professores, aprendia também com êles, sempre e repetidas vezes, o quanto DEPENDEMOS de um bom ouvido que nos ouça com imparcialidade e reforço às nossas idéias. O quanto o conhecimento vai nos tornando mais tristes, solitários e carentes de compartilhamento SE: perdermos a simplicidade no decorrer do aprendizado. Aprendi sim que o conhecimento não pode tomar o lugar da simplicidade, deve aumentá-la e isso é tarefa individual.

Quando o conhecimento nos coloca em contato com terriveis limitações e as aceitamos passivamente, aprendemos a impotencia e amarguramos.

Quando o conhecimento nos coloca em contato com terriveis limitações e nos propomos a superá-las, sem pressa, com humildade (a verdadeira) e simplicidade, crescemos.

Quando um expert, nessas condições, encontra um respeitável, paciente e bom ouvinte, é uma festa para êle.

Aprender a ouvir implica em baixar a guarda, mesmo quando agredido.

Não é fácil mas com treino a gente consegue.