Funcionário novo do alto escalão de uma companhia de conteúdo para Internet, ZéMega (seu apelido) chegava para um novo dia de trabalho. Dedicado “ex-nerd”, desfrutava agora de um salário antes impensável. Homem de poucas palavras ditas e muitas guardadas entrava sem jeito no prédio, passava batido pela portaria, no elevador olhava pro chão, na sala, que dividia com mais seis colegas, sentava à frente do computador e…fazia jus ao seu salário.
Depois de um mês de trabalho começou a se incomodar com as risadinhas que deixava para trás quando passava pela portaria. Tudo meio disfarçado, mas percebia que estava se tornando motivo de riso e não fazia idéia por que. Aguçou a percepção, a essas alturas quase paranóica, e notou que não era só na portaria que isso acontecia. Na contabilidade, na cozinha no almoxarifado. Menos na sua sala. Como defesa resolveu fechar mais ainda a cara. Já não cumprimentava ninguém antes, agora então, sequer olhava na cara alguém desses setores. Sabia que era um gênio, cheio de idéias, sentia-se um ser superior e que os “comuns” jamais teriam condições de perceber e dar-lhe o devido valor. Tinha certeza de que esta era uma distância pela qual não tinha a menor culpa e que isso era uma circunstância sem solução. Defendia-se então convictamente da aspereza e da grosseria do “mundinho” inferior com o qual tinha que conviver, fechando-se em seu piro-tecnológico fantástico mundo da genialidade virtual. O gênio incompreendido.
Começou a sentir saudade dos tempos de “nerd” enfiado no quarto quando não tinha que olhar pra cara de ninguém. Só tinha que aturar a mãe reclamando do fanatismo virtual. Agora até ela o aplaude. Empregado com alto salário, cumprindo expediente, o que mais quer uma mãe para o seu filho?

Quatro meses de trabalho e ZéMega pede ao patrão para trabalhar em casa, já que o que fazia poderia fazer em qualquer lugar.
Já não agüentava mais aquele não convívio tenso. ZéMega tava estressando.
O patrão negou e ZéMega brochou.
Começou não rendendo, faltava demais e foi chamado pra uma conversa ao meio dia.
O patrão, já sabendo dos fatos, tentava conversar com ZéMega passeando pela empresa. Depois de meia hora não haviam ainda trocado uma palavra sequer, por toda parte em que o patrão passava, parava, cumprimentava cada um, apresentava o ZéMega como uma grande pessoa, sensível, gentil, aplicado…e ainda ficava perguntando da vida de cada funcionário. O Zé, de saco cheio, mal conseguia olhar na cara das pessoas, dava aquele sorriso amarelo, olhando pra baixo e o patrão fingia que não via. Continuava aquele tour sob o pretexto de que tinha que pegar não sei o que não sei aonde. E lá ia o Zé. Depois de uma hora o patrão disse, rapaz, ce ta cansado, vai pra casa. Amanhã ce volta mais disposto. Sem entender nada lá foi o ZéMega pra casa. Dia seguinte, tudo igual. Deu meio dia o patrão chamou o Zé na sala dele outra vez. E aí Zé? Como vão os programas? Mal o Zé respondeu, vira o patrão e diz, vem cá, vamo conversando que eu tenho que pegar não sei o que não sei aonde. Tudo outra vez. Deu uma hora e o patrão dispensou o Zé. E assim uma semana. ZéMega fazia meio expediente na sua sala e meio em casa sem fazer nada. As pessoas começavam a olhar o Zé com bons olhos. Com os olhos do patrão. O apelido até mudou pra ZéGiga. Mas não tinha jeito de o Zé relaxar, se entrosar. Apesar de se sentir mais superior ainda, uma sensação de inferioridade ficava perturbando a sua cabeça. Ele até compensava argumentando consigo próprio: “Ninguém é perfeito”. Mas não se sentia feliz e isso o incomodava. Depois de duas semanas fazendo tour pela empresa com o patrão ao meio dia, Zé, já famoso ZéGiga, foi chamado na sala do chefe. Zé, pega esse envelope e leva em todos os departamentos e leia em voz alta, é uma mensagem que eu quero que todo mundo ouça do jeito que está escrito e na voz de alguém, senão eu mandava um e-mail. Mas chefe, argumentou Zé, o meu serviço não é esse…Eu sei Zé, mas isso é um favor, depois na volta vamos almoçar, eu pago. Ta bom chefe. Lá foi o Zé. Chegando à contabilidade todo o pessoal o cumprimentou com sorrisos e bom humor. Zé, com o mesmo sorriso amarelo de sempre, abriu o envelope, tirou o A4 de dentro e começou a ler. EU NÃO SOU MAIS NEM MENOS DO QUE NINGUÉM AQUI. EU PRECISO DE TODOS VOCÊS NA MINHA VIDA. PEÇO HUMILDEMENTE QUE ME AJUDEM A PERCEBER OS MEUS ERROS E OS MEUS ACERTOS. PEÇO QUE TENHAM PACIENCIA COM AS MINHAS LIMITAÇÕES E ME PEDOEM A EVENTUAL POSE DE SUPERIOR. EU, COMO TODOS OS SERES HUMANOS, SOFRO DE FALTA DE CARINHO E AMOR. ME AJUDEM. PROMETO SER MAIS SIMPÁTICO, CARINHOSO E TOLERANTE COM TODOS, PORQUE APRENDI A AMÁ-LOS NESSE TEMPO QUE CONVIVEMOS. A essa altura do texto, entre parêntesis, havia a instrução: “CONTAR ATÉ 10 EM SILENCIO. E DEPOIS DIZER: ASSINADO O CHEFE”. Obviamente enquanto corriam os 10 segundos o pessoal todo aplaudia e gritava em coro: ZéGiga, ZéGiga, ZéGiga. Levantaram e abraçaram o Zé, uns ate choravam. A gente gosta de você Zé, é que você era muito esquisito, tipo jeitão de “nerd” sabe? Você nunca cumprimentava a gente, até achamos que era culpa nossa.
E assim foi em cada departamento.
Ele estava ficando preocupado porque nunca conseguia ler a assinatura da mensagem.

Terminado o tour e de volta à sala do patrão ZéMega tava tonto de tanto elogio, mas muito envergonhado. Patrão, eu li, mas em nenhum dos departamentos dava pra ler a sua assinatura, não foi por mal, as pessoas achavam que a mensagem era minha e começavam a me aplaudir.
Não faz mal Zé, pelo menos agora você sabe o quanto à gente gosta de você aqui. Já é um começo. Vamo almoçar?
Vamo, respondeu Zé com cara de ponto de interrogação.

No meio do silencioso almoço Zé superou a timidez e resolveu perguntar: Chefe, como assim já é um começo?

– Zé, é o seguinte: você é muito bom com computadores, mas péssimo com gente. O pior é que a sua arrogância não deixa você perceber isso e acha que o problema é com os ouros. Até aí você pode dizer que esse não é o seu trabalho. Ao que eu respondo que não é, por agora, mas a empresa vai precisar que você seja bom com gente também. Eu tenho planos pra você. O seu cargo tem que ser ocupado por alguém bom como você com maquinas, mas bom também com gente, senão nada feito.
-E o que que eu faço?
Muda. Trata o pessoal da empresa do mesmo jeito que eles te tratam.
Pega aquele texto e cola no monitor do seu micro, leia a toda hora.
Cumprimenta as pessoas com sorriso verdadeiro e não com esse sorriso amarelo. Para de se achar.
-Mas chefe…
-Cala a boca. Você, na verdade, é um cara inseguro, medroso, se acha um nada e faz pose de arrogante pras pessoas não descobrirem isso. Meu, nem me interessa quem foi que te convenceu que você é um nada, o fato é que, pra mim, você não é. Mas com as pessoas ta agindo como um e o pior, ta minando o ambiente pessoal da minha empresa. Eu levei anos pra aprender isso e mais outros tantos anos pra instalar essa filosofia aqui. Eu só gastei esse tempo todo te mostrando como tem que ser, porque no lado técnico você é bom. Papo encerrado. Você tem um dia de folga pra pensar se quer ou não essa oportunidade. Depois de amanhã, se você decidir pela simplicidade, pela educação, pelo bom astral, será bem vindo, se não, vai ser infeliz pra lá.
Dois dias depois chega o Zé todo sorridente, cumprimenta o porteiro que retribui com o sorriso costumeiro –Fala ZéGiga!
O Zé parou, pensou e disse:
-Seu Osvaldo, ZéGiga não.
– Opa desculpe, eu não sabia que o senhor não gostava do apelido.
– Não é isso Seu Osvaldo, é que de hoje em diante eu prefiro: ZéGente.