Toda relação amorosa é composta de um conjunto de, pelo menos, dois tipos de sentimentos:

Encantamento e irritação.

O encantamento vem das afinidades. As irritações vêm das diferenças.

É opção de cada um se centrar, colocar o foco, em um grupo ou em outro.

Quando estamos muito insatisfeitos com a nossa situação existencial e nos negamos a encarar isto, transferimos a causa desta tristeza para o parceiro amoroso, nas irritações que ele nos causa. “meu deus, essas diferenças me matam!” brada a vítima.

Não conseguimos pensar em diferenças sem hierarquizar as relações.

O diferente de mim, as diferenças que eu tenho em relação ao meu parceiro amoroso, me provocam raiva, se eu não sou um ser maduro. Daí eu projeto, nessas diferenças, toda a minha raiva não resolvida, que tenho em relação às minhas frustrações, e culpo as diferenças como causa da minha infelicidade. Aí o meu parceiro passa a ser o carrasco e eu a vítima. Está hierarquizada e enquadrada como relação de poder (cabo de guerra, tabuleiro de xadrez) o que deveria ser uma relação puramente amorosa e encantadora que aliviaria meus pesos existenciais.

Poluentes da relação: rivalidade, ambição, disputa de domínio, queixas excessivas, desconhecimento e desrespeito dos limites do outro, etc.

Tudo isso porque o sexo, desde a infância, está (socialmente) associado à agressividade e nos faz ter raiva inconsciente do sexo oposto. O adolescente conquistador aprende a “comer” as menininhas e estas a “conquistarem” um carinha legal.

Amor não é isso, mas isso leva o nome de amor na sociedade.

E, para não nos sentirmos tão sozinhos no nosso encantador amor, optamos por viver o amor segundo a sociedade, com base na irritação, nas diferenças, um sexo agressivo. Tudo isso para ter a aprovação de todos por causa da nossa imensamente insuperada insegurança. Dai o amor acaba.

É assim que nós matamos aquilo que poderia nos fazer sobreviver melhor.

Solução (?):

Dissociar sexo da idéia de agressividade e centrar sua relação amorosa no encantamento e não nas irritações. Assim, ao invés de se fazer concessões, que geralmente nos mutilam, fazemos só o possível, com respeito, e o outro nos percebe como alguém voltado amorosamente para ele.

IMPASSE (?)

Se nos centrarmos no encantamento, as irritações ficam muito toleráveis e a gente perde a aceitação social.

Se nos centrarmos nas irritações (nas desafinidades), o encantamento morre, mas e gente ganha aceitação social.

Ter ou não ser? Eis a questão.

O mais importante é lembrar sempre que não existe amor sexual duradouro em sociedade.

Em segredo, dependendo da estrutura de cada um, ele pode ser eterno.

Em sociedade o amor nasce entre quatro paredes e morre na sala de visita.

Entre o momento das quatro paredes e o da sala de visita ocorre o processo lento e imperceptível

da fraternização, da desmotivação até a putrefação do amor.

Por isso ouvimos o filósofo etílico no botequim dizer, com a voz embargada, entre um soluço e outro:

“A vida é assim mesmo… (soluço)… fazer o que?”