Qual é o produto direto da arte e do esporte? Cultura através do entretenimento. Pode ser uma resposta não completa mas verdadeira.
Vocação e sentido de vida é o que move artistas e esportistas. O sucesso em suas vidas é praticar suas vocações. Aceitação pública é um ganho extra para a auto estima e em muitos casos para a conta bancária, mas tem um preço alto que é a perda do anonimato, da privacidade que, às vezes, destroi o sucesso. A popularidade acontece para um percentual muito pequeno de artistas e esportistas. A maioria, a grande maioria vive a sua vocação quase no anonimato ou no anonimato total. Quando um artista ou esportista obtém popularidade, é fruto de um feito seu, único, individual, do seu talento. A finalidade única é manifestar sua arte, suas idéias, sua destreza, sua habilidade. Com muita coragem e entrega enfrentou os limites e, casualmente, tornou-se célebre. A finalidade é a de ser ele mesmo ao máximo. As pessoas admiram, invejam (o que dá quase na mesma) querem aplaudir e desfrutar. Se olharmos no retrovisor da história veremos que os artistas (aqui eu incluo esportista como performista que não deixa de ser arte, se considerarmos o circo como uma das primeiras) influenciaram muito os passos da humanidade, menos que as guerras, é claro, mas refiro-me às influencias construtivas. Artistas, performistas, pensadores não produzem objetos de consumo, produzem idéias, comportamentos.
O talento para a arte não tem nada a ver com o talento para fazer dinheiro, muito embora, em alguns casos, eles possam ser encontrados em uma única pessoa.
São as indústrias gráfica, fonográfica, de vestuário, alimentícia, de mídia que transformam feitos e idéias em produtos de consumo.
E é exatamente a arrogância (atitude de tomar posse de) dessas indústrias, que produziu o fenômeno do estupro cultural. Para o artista conivente, fadado a ser joquete tal qual animal de estimação descartável, isso pode trazer a segurança material, fim de um problema e começo de outro: o compromisso com a venda. Para os estupradores, até aí poderia tanto fazer, eles querem mais é lucrar e lucram. Mas estão lucrando(?) a qualquer preço, inclusive o mais caro: a imagem institucional. Como?
Que estamos vivendo uma época de selvageria consumista todos sabemos. Mas quem quer lucrar mais, estuda, encomenda inúmeras pesquisas e percebe que existe uma coisa chamada excelência, a tal da qualidade. Percebe que o público (pessoas) percebem um ato de covardia, de abuso. Não falam nada, talvez nem evitem consumir o produto industrial do estuprador, mas qualificam, julgam e classificam: aquele industrial é um estuprador cultural, tá a perigo, tá fazendo qualquer negócio pra sobreviver, TÁ MAL, quer se dar bem. Na melhor das hipóteses, fica a imagem de aproveitador, de oportunista pragmático. Com o tempo o descrédito é associado ao produto.

Mas afinal, do que estou falando?

Torneio Bradesco de volei
Premio Sharp de música
Teatro Credicard Hall

he he

O que produz o Bradesco além de lucros absurdos?
O que a Sharp tinha a ver com a música além da paixão do filho do dono pelo meio artístico?
O que um cartão de crédito tem a ver com o teatro?

São instituições imensas surrupiando a credibilidade de abnegados que se tornaram populares pelo seu talento.

Se fossem instituições geridas por pessoas de bom nível, cultas (não basta ser informado) teriam vergonha de fazerem isso. Eu sinto vergonha por eles.

Se quiserem continuar surrupiando a credibilidade dos abnegados mas aparentando bondade , seria de bom tom, generoso e educado, por exemplo, fazer:

Torneio Bernardinho de Volei (apoio Bradesco)
Premio Chiquinha Gonzaga de Música (apoio Sharp)
Teatro Walter D’Avila (mantido pelo Credicard)

Agora, se gostassem mesmo de apoiar a arte e o esporte, dariam estudo artístico gratuito popular e mídia para os seu beneficiados. Mídia para os grandes talentos anônimos.
O custo/benefício no nível institucional seria bem maior. Não a curto prazo, claro.
Institucional nunca rimou com curto prazo.

Há uma dita no não dito: Você consegue o público que eu te dou uma migalha.

E, finalmente, já que o artista e o esportista, alavancam tanto as vendas das indústrias, o ético seria que eles recebessem participação nas vendas dos produtos aos quais fizeram o favor de associar suas imagens conferindo credibilidade a eles.

A arte precisa do dinheiro e o fazedor de dinheiro precisa da arte para fazer mais dinheiro.

Talento para a arte não tem nada a ver com talento para fazer dinheiro
, não fosse assim, Van Gogh, Vivaldi e tantos outros, por exemplo, não teriam morrido na miséria.

Para sobreviver, o artista precisaria saber fazer dinheiro sem deixar de ser artista, assim ganharia o suficiente para continuar sendo artista e não pucha-saco de publicitário ou fazendo performance de rua por uns trocados. Formas diferentes de mendicância que comprometem diretamente a integridade da obra. Creio que em 99% dos casos, isto seja impossível.
Como disse em capítulos anteriores: arte é amor, dinheiro é caça.

Quanto menor a vocação artística maior a possibilidade de o indivíduo fazer dinheiro. E vice-versa.