FATO

Tudo aos berros:

Roberto-Você é uma vaca, uma imbecil, tava pensando no que?

Elisa-Ela não tem culpa, não precisa ser assim, estúpido, todo mundo tem direito de errar!!!

Celia-Tá nervosinho, tá? Presta atenção em você, seu bosta!

Roberto-Bosta é você, vagabunda! Burra, OreiaOREIA!

RuthVamo pará com isso? Chega, já chega!

Roberto– Essa cretina não presta atenção em nada, vai se foder!!!!

Elisa-Escuta…

Roberto-Escuta nada, não encha o saco voce tambem..

Elisa-Escuta…ESCUTA, DEIXA EU FALAR PORRA!!!!!!!!!

Ruth– Ai meu Deus, vamo parar com isso?

ElisaVoce não pode culpar a Celia, ela só não viu que…

Roberto (aos berros)-NÃO VIU O CARALHO! NÃO VIU O CARALHO!!!!

É uma filha da puta, não tá nem aí!!!!! Se faz de boba pra me irritar!!

Ruth-Ai gente, assim eu vou parar…

Roberto-É sempre assim, puta que pariu! A Celia é burra, burra, topeira!

CeliaTopeira é voce, estúpido!

Roberto-Cala a boca CALA A BOCA, eu só não te encho a cara de porrada porque a gente não tá em casa

Elisa– Acho bom mesmo, na minha casa voce não vai bater em ninguém!

Roberto-Mas ela merecia, essa vaca do inferno!

Celia-Vaca é a sua mãe!

Vilma (mãe do Roberto)- Eu não tenho nada a ver com isso, e vaca é a sua mãe!

Ruth-Gente, eu vou embora, assim não dá.

Roberto– Não vai nada, vamo continuar.

Celia-Eu não quis ofender a senhora dona Vilma e a minha mãe não é nenhuma vaca!

Roberto-Ela não, mas voce é!

Celia– Seu covarde, covarde,(chorando) só porque eu sou mulher!

RuthCHEGAAAAAAAAA

Elisa-De quem é a vez?

Roberto– Sou eu, eu distribuo.

Silencio total. Ao fundo passarinhos cantam alegrando a linda tarde de domingo na fazenda da Elisa. Roberto distribuiu as cartas e continuaram a partida. Em meio a um profundo stress, fruto de raivas guardadas, de meia em meia hora, essa troca de gentilezas se repetia até o jogo acabar. Essa é a higiene mental daquela família que se reúne para relaxar todo fim de semana.

TEORIA

Quando não conseguimos ter a iniciativa para conversarmos abertamente sobre as nossas diferenças, ou quando não encontramos abertura para isto no outro, uma coisa horrível vai se acumulando em nós: O NÃO DITO. O não dito gera problemas.

Aí deixamos para descarregar as raivas que vão se acumulando, em momentos em que o assunto não é o que recalcamos. A mesa de jogo é ideal para isso. Xingar o juiz é melhor ainda, é totalmente impessoal.

O sujeito que tá com problemas de baixa autoestima, coloca num simples jogo, a afirmação da sua superioridade (se ganha) ou da sua inferioridade (se perde). Se ganhar, a sua autoestima sobe e ele já não se sente tão inferior assim, se perde, é a morte.

Essa é a pior coisa que alguém pode fazer para a sua própria autoestima. Porque em ambos os casos o cara sabe que está se enganando. Ele não é melhor pessoa porque ganhou e nem pior porque perdeu. E nem é ruim ou bom simplesmente por que se acha ruim ou bom.

Este quadro complicado costuma aparecer nas pessoas que estão com uma sensação muito grande de inferioridade. Aí um simples jogo pode ter a função faz-de-conta de superioridade, no caso de ganhar. Sim, porque o cara que se sente muito inferior e não tem estrutura emocional para “bancar” essa sensação, não se contentaria com a sensação de estar “na média” ele precisa da sensação de superioridade. Aí vira um surtado na mesa de jogo. Surtado manso ou surtado agressivo, surtado enrustido, tem de tudo.