Cezar passou 10 anos de sua vida, dos 18 aos 28 anos, trabalhando duro e tendo que puxar o saco de Francisco, seu chefe, com quem trabalhava na mesma sala, na mesma mesa. Faziam dupla. O chefe constantemente o humilhava. Cezar não ria de uma piada sequer sem antes observar nervosamente se o chefe estava rindo. Se estivesse, ria, se não estivesse, não ria. Finalmente, para tristeza e profunda inveja do chefe, Cezar começou a se tornar um profissional premiado.
Ele percebia o desconforto do chefe e isso o deixava muito estressado. Desafogava essa tensão em cima dos funcionários do baixo escalão. Um em especial, Ricardo, que não tinha papas na língua. Declarava a sua inveja e dizia – Um dia ainda vou me encontrar. Falava o que achava mesmo das coisas, sem maldade, mas com uma sinceridade que deixava os inseguros mais perturbados e, por isso, não durou muito na empresa.
Mais cinco anos se passou e, num belo dia, os dois se encontram no elevador de uma multinacional. Ricardo havia se tornado diretor da empresa que tinha Cezar como fornecedor.
Sem saber que cargo Ricardo ocupava, Cezar, com descaso e em tom zombeteiro disse a ele: – Você subiu muito rápido na vida, hein! E ouviu de Cezar a seguinte resposta: – Você acabou de perder um cliente. Isso deu início a uma perseguição de Cezar em relação a Ricardo pelo mercado afora que durou mais 10 anos.
O despreparo emocional de Francisco o fez sucumbir à inveja destrutiva em relação a Cezar que, por sua vez, já emocionalmente despreparado, guardou ódio e criou inimigos em seu próprio meio e desacatou Ricardo sem saber que era seu cliente e o perdeu como tal.
Historinha padrão desse mundinho de voracidade financeira, sexo controlado e hipocrisia.
Existe uma máxima no meio empresarial que diz: NUNCA BRIGUE COM NINGUÉM. VOCÊ PODERÁ PRECISAR DO SEU INIMIGO DE HOJE COMO AMIGO AMANHÃ. E É SEMPRE BOM PAIRAR NO AR QUE ALGUÉM TE DEVE UMA.

Para esse ambiente de guerra, que é como o mercado capitalista se comporta, isso pode ser oportuno e interessante. Mas a médio e longo prazo o custo pessoal é alto e não compensa. Como assim? Ninguém tem estomago de ferro. Assim os muitos sapos engolidos ou são despejados nos subalternos ou nos considerados inferiores ou dependentes, criando um ambiente destrutivo que sempre acaba virando doença. Ou, se o engolidor de sapo não despeja seu ódio em ninguém e se azeda com os sapos, mais cedo ainda vai pagar o preço com a sua saúde.
O país capitalista, mais ferozmente competidor e materialmente mais vitorioso do planeta tem, ao mesmo tempo, o maior índice de doenças causadas pelos maus hábitos alimentares, para dizer o mínimo quanto à saúde. Vitória a que preço? Da autodestruição da espécie. Isso NÃO está dando certo. Porque a nossa vocação não é nem a caça e viramos guerreiros. Nós somos uma relação, já disse isso em outros momentos e vou repetir quantas vezes for necessário. O “como” estamos exercendo essa relação é que nos faz agir como praga no planeta.

Voltemos à historinha.
Dentro da empresa o erro ali começa com Francisco, o chefe. A baixa auto estima dele faz com que sinalize que precisa de bajulação. Daí fica para os subalternos que quem bajular mais, quem concordar mais, tem mais prestígio junto ao chefe. Mas fica também que quem brilhar mais que o chefe, corre perigo.
Esse mecanismo de ameaça e medo compromete o resultado do trabalho em muito. Cezar, também emocionalmente despreparado, descarregava seu stress gerando mais desarmonia. Destratando os subalternos, inclusive Ricardo. Mas Ricardo, nessa cadeia de efeitos, era o mais bem preparado emocionalmente. Ele sabia que o seu provável insucesso não viria da inveja de Cesar e nem de ninguém. O seu sucesso dependia dele mesmo. Ele percebia também que o sucesso do outro SÓ serve para o outro. Sabia que é inútil querer o que é do outro, ele queria o SEU próprio sucesso e o alcançou.

O Ricardo tinha a boa inveja, a inveja construtiva.
Cezar e Francisco eram movidos pela inveja destrutiva.

A inveja destrutiva nasce quando essas duas coisas aparecem:
– desejo equivocado de realização
– sensação de incapacidade.

O que é a sensação de incapacidade: É alguém olhar o carro de uma pessoa e pensar: – Eu nunca serei capaz de ter um assim.

O que é o desejo equivocado de realização? É alguém ignorar que o que é bom para um não necessariamente é bom para outro. O desejo (não equivocado) de realização nasce da descoberta do real sentido de vida, da vocação.

O que perverte isso é adotar como meta de vida a quantidade de dinheiro e/ou poder.
Pergunta imbecil: Ah, mas se a vocação for ganhar dinheiro?
Ganhar dinheiro não é vocação humana. Servir à relação sim.
O dinheiro é um precário representante da energia despendida com o trabalho. É ótimo para evitar os incômodos do escambo. Mas o dinheiro como instrumento de poder de uns sobre os outros só nos afasta. Sendo que nossa vocação básica é ser/exercer uma relação, está explicado o que faz com que vivamos como uma praga no planeta.
-O DINHEIRO?
Errou !!! É o desejo de poder de uns sobre os outros.
Isso nos perverte duplamente:
Conduz à caça e mais adiante à guerra.

A inveja construtiva nasce da percepção do quanto eu ainda não realizei da minha vocação e me estimula a ir atrás dela. Essa percepção pode acontecer quando vejo alguém na sua excelência pessoal e eu sinto vontade de viver A MINHA excelência pessoal e não a dele.

A inveja destrutiva NOS destrói a todos
A inveja construtiva NOS constrói a todos