Vejamos.

Muitos anos atrás eu trabalhava em uma grande agência de publicidade. Exercia um cargo bem simples, mas que me permitia transitar com facilidade por toda a agência. Não servia cafezinho, fazia algo mais qualificado, e tinha um contato mais intenso com as pessoas. Sabe-se que neste ramo de atividade a competição é intensa e muitas vezes cruel. O que passo a descrever agora é comum a todos os ramos de atividade, mas vivi isto numa agencia de publicidade.
Pois bem. Extrema habilidade intelectual, talento de bom vendedor, rapidez de raciocínio, excelente cultura pop, criatividade, boa esgrima verbal, paciência, persistência, engolir ranários com sorrisos de felicidade, habilidade política, agressividade bem dirigida, extrema competitividade pessoal, bom humor e algo mais que eu tenha esquecido, são ingredientes básicos para um publicitário de sucesso. Quanto maior o salário, mais essas capacidades são decisivas. Esses profissionais da publicidade estão no ambiente de caça, de guerra, mais precisamente. Sua ferramenta de trabalho é a criatividade intelectual, bom jogo de palavras. Às vezes me pergunto: O que seria da publicidade se não fosse o trocadilho? O humor publicitário que se vê na mídia, além de muito talentoso e engraçado mesmo, é delicado, generoso, muitas vezes até sutil. Claro, tem que ser sedutor, encantar o espectador, sensibilizá-lo e fazê-lo comprar o produto. Na agência, no ambiente de trabalho, muitas vezes acontece o contrário. A disputa de território se dá com requintes de insinuações maldosas, destrutivas, persecutórias… Tudo isso na embalagem da “brincadeira” bem humorada. Não dá pra dizer que alguém está destruindo alguém. Tudo é dito com sorrisos e tapinhas nas costas. Mas é uma sistemática lavagem cerebral. O intuito é sempre minar a paciência e a resistência da vítima até que ela estoure e crie uma situação embaraçosa para si por ter (re)agido com violência. Daí o agressor passa para a confortável posição de vítima. Mas como, no alto da pirâmide salarial, todos tem ranários profissionais na barriga, ninguém nunca estoura. Fica aquela esgrima diária e sem fim, até que as peças do tabuleiro mudem de posição ou um seja eliminado.
O humor que acontece aí, nesse ambiente, para mim não é humor, é gozação. É agressão com sorrisos. É grosseria.
– E aí Zé Mané? Há! ha! ha!
– Gente, esse aqui é o famoso ex tudo!
– Aquele cara é uma figura! (dito com sorriso e cara de pouco caso)
Além dos apelidos depreciativos que exigem grande jogo de cintura de quem os recebe, para aceitá-los e superá-los, quando conseguem. Muitas vezes os gozadores (caçadores) retrucam diante das reclamações: – Puxa, cara, você não tem senso de humor? Precisa ter espírito esportivo.

Nessa empresa, no departamento administrativo trabalhava um sujeito com deficiência física em uma das pernas e não tinha lá o melhor do bom humor. Tinha um complexo de inferioridade bem acentuado, cria-se devido a essa deficiência. Um outro sujeito, um dos mais altos salários da empresa, apenas por maldosa diversão, deu-lhe o apelido de “Mentira”.
As pessoas perguntavam – mas “Mentira ”porque? O cara é mentiroso? – Não, respondia o autor do apelido, é porque tem perna curta.

Para mim esse é o extremo da gozação, da destrutividade e da maldade. É o exercício da maldade atávica, aquela que, sem motivo algum de caça, sai pelo simples impulso automático da maldade.
Não dá pra aceitar o sarcasmo como um tipo de humor. Sarcasmo é a habilidade de usar um jogo de palavras inteligentemente para destruir.
É uma forma requintada de ferir. Tipo arma química da palavra.
Mas que humor é esse a que me refiro?
Mau humor. Bom humor. Diferentes estados de ânimo segundo a psicologia.
Estou falando do humor no sentido da comédia, do ato de fazer rir.
Para mim, o humorista não tem nada a ver com o gozador. muito embora encontremos as duas coisas em uma só pessoa.
O bom humorista faz de si o objeto risível. Não perde tempo “esgrimando” com ninguém, não precisa fazer o outro de palhaço para ser engraçado. ELE TEM A ESTATURA DE CARATER E O TALENTO necessários para fazer de si o palhaço, o risível, sem prejuízo de sua imagem, muito pelo contrário. Ele tem arte e humildade. O humorista é um grande artista, o gozador é um fraco e um covarde.
Vejamos, desta lista, quem você acha que é humorista e quem você acha que é gozador?
Charles Chaplin, O Gordo e o Magro, Gene Wilder, Peter Sellers, Jerry Lewis, Wood Allen, Mazaropi, Chico Anísio, José Vasconcelos. Se você acha que todos são humoristas, acertou. Observe que nenhum destes é imitador.
Má notícia: Estamos na era da gozação. O mundo inteiro hoje (2007), desde a década de 70, vem cultuando cada vez mais as pegadinhas que são a maior instituição da gozação. Tem muito apresentador de televisão que não sobreviveria se deixasse de ser gozador. Simplesmente porque não tem talento para o humor. São gênios da destruição verbal requintada. E o pior: alguns são chamados de humoristas. BUAAAAAAAAA HAHAHAHAHA isso é tragicômico.
Assim como o pior desserviço que a mídia presta não é a banalização do sexo, mas a exclusão do afeto, outro grande mal é o empobrecimento da qualidade do humor e o enriquecimento do culto à gozação. Noves fora: caça em detrimento do amor.