A pessoa perfeita faz tudo certo, sempre. Cumpre seus deveres à risca, chega na hora marcada. A pessoa perfeita se resigna e renuncia a seus prazeres e fantasias por considera-los loucura pois a levaria a vulnerabilização e a tornaria alvo da auto-crítica feroz e possível humilhação exterior. A pessoa perfeita é muito rigorosa. É simpática por rigor, cordata por rigor, faz concessões por rigor para não passar por inflexível. É religiosa por temor (geralmente escolhe esses clubes de fidelidade religiosa), casa-se por rigor, gera filhos por dever. Realiza o seu trabalho com perfeição por rigor e por julgar ser esta, nada mais que a sua obrigação. A pessoa perfeita não olha, observa criticamente tudo que os outros fazem e contabiliza, e dessa contabilidade estabelece juízo de valor sobre os outros. A pessoa perfeita sempre faz e aconselha o lógico e o racional. A pessoa perfeita está acima da crítica por que não faz absolutamente nada errado. A pessoa perfeita não dá colo, chama a atenção. A pessoa perfeita não dá carinho, agrada com presentes ou atitudes que faz questão de mostrar como sacrifícios, geralmente quase impossíveis de serem retribuídos. A pessoa perfeita vive muito e envelhece amarga. A pessoa perfeita não deve nada a ninguém e quando não é retribuída, cala o ódio da rejeição e destila esse veneno junto aos que lhe são de confiança (geralmente outros perfeitos).

A pessoa perfeita se acha muito imperfeita mas não sabe que é a mais imperfeita das criaturas porque não se perdoa, não perdoa e nem acha possível ser perdoada. A pessoa perfeita se acha condenada a disfarçar e padecer eternamente da sua imperfeição cronica. A pessoa perfeita (condenada à perfeição) se acha suja, indigna e desprezível…e, por isso, o pior: Tem certeza de que nunca será amada verdadeiramente e com isso desconfia de todos, e não aprende nunca o que é o amor.

Não faz nada de coração, faz pelo rigor do dever.

Solidão e amargura…esse é a condição da pessoa perfeita.

A pessoa perfeita não faz mal…ELA é o mal.