Solidão…só padece de solidão quem não tem a tal da satisfatória vida interior. Se nós não tivermos uma boa vida interior vamos sentir a solidão que permanece mesmo quando estivermos no meio de amigos, de parentes, quando estivermos no ambiente de trabalho, ainda que amemos nossa atividade profissional. Todo mundo conhece essa sensação. Quanto mais distante estivermos de nós mesmos, mais solidão sentiremos, mesmo acompanhados.

O problema é não fazermos o que gostamos, do jeito que gostamos, com a auto-aprovação que precisamos para sermos felizes

Quando dependemos da aprovação de alguém, ainda que inconscientemente, para fazermos o que amamos, e essa aprovação não acontece de forma satisfatória, nasce a mágoa pelo desprezo. Nascente do rio da solidão que forma os afluentes da baixa auto-estima, da sensação de indignidade, da sensação de não ser considerado, da sensação de isolamento afetivo e físico por consequência…além de outros terríveis afluentes.

O contrário é saúde: Quando não dependemos da aprovação de ninguém, ainda que inconscientemente, para fazermos o que amamos, não há mágoa nem sensação de desprezo, há sensação de plenitude, nascente do rio da completude que forma os afluentes da alta auto-estima, da sensação de dignidade, da sensação de ser considerado, sensação de estar afetivamente bem acompanhado pelo todo do qual fazemos parte.

Não depender da aprovação não é “não estar nem aí com os outros”. É estar em contacto amoroso com o todo, incluindo cada ser, mas sem depender da aprovação deste ou daquele. Ouvir cada um é sempre muito importante, estamos em aprendizado constante, mas depender da opinião de alguém é doença, seja de quem for…

Se considerarmos o fato óbvio de que estamos vivendo uma tripla perversão: o sedentarismo, a caça e a guerra instaladas na nossa cultura, transformando o nosso comportamento no de uma praga (mesmo originalmente não sendo), o primeiro sintoma dessa condição, no indivíduo, é o da solidão, principalmente afetiva.

Outro fator determinante para a sensação de dependência da aprovação alheia e consequente solidão é a submissão aos valores impostos pela midia (berrante do poder), e ninguém, mas ninguém mesmo escapa disso. Por mais vacinado que acredite estar, por mais cabeça feita que se ache, não tem jeito. São valores coletivos impostos e marcados a ferro e fogo no consciente e inconsciente coletivo. Ligou TV, ouviu radio, leu jornal ou revista com admiração, TÁ CONTAMINADO.

Crianças necessitam de objetos transicionais de afeto. É a dependência daquele ursinho, travesseirinho, etc. para a transição afetiva em relação à mãe para as outras relações. Conta-se que, se a mãe conduz bem essa transição, tanto mais saudável emocionalmente será o filho. Como estamos em guerra, não é de se esperar que isso ocorra com sucesso na maioria dos lares (trincheiras). O insucesso nessa transição gera dependentes doentios de aprovação alheia, competidores vorazes e inescrupulosos, egocêntricos compulsivos, solitários amargos, etc.

Sendo assim, é natural que as relações “afetivas” dos humanos civilizados (agindo como praga) sejam o que tem sido: UM DESASTRE ECOLÓGICO. Basta algum poder para transformarmos nossos iguais em objetos de afeto escravo. Temos feito isso uns com os outros desde SEMPRE!!! Até aí, tudo muito cruel mas, problema nosso. Praga não é só isso, praga se destroi, destroi seus semelhantes e destroi o meio em que vive.

Aqui entra o objeto deste capítulo.

O que a “praga” humana faz para reforçar a segurança da tribo(sociedade) ou da trincheira(lar) e para aplacar a solidão?

Escraviza e contamina animais.

Cavalos, bois, cães, tartarugas, peixes, gatos, pássaros, etc.

É mais fácil fazer isso do que viver a vocação de sermos uma relação generosa e não termos essas doenças advindas da sensação de desprezo (que não é só sensação).

Não tem um só desses escravos que não adquira as mazelas dos “donos”. Dono mal humorado, animal mal humorado, dono agressivo, animal agressivo, dono amargurado, animal amargurado, etc

“Ah mas eu chego em casa e o meu gato faz a maior festa”.

ai ai (longo suspiro) tédio…

ÓBVIO QUE VAI FAZER A MAIOR FESTA:
Ele é escravo, fica lá trancafiado, fora do habitat, viciado nos hábitos doentes do dono QUE É DE OUTRA ESPÉCIE, desaprendido de caçar, a sobrevivência dele depende inteiramente do dono que o levou a essa condição de dependência da forma mais covarde possível, o dono, para êle, é a sobrevivência…acha que ele vai querer matar o dono?
Coitado mesmo, vai fazer pirraças quando sentir mais descaso, mas é só isso. Sequestro perpétuo!
Coisa de praga mesmo. Nós nos deixamos sequestrar por valores altamente destrutivos e contagiosos e fazemos isso com outras formas de vida. O fato delas se adaptarem não significa que estejam em harmonia.

Dá pra imaginar o que significa para uma ave, que no seu curso natural de vida precisa voar 5000Km nas épocas de migração, viver engaiolada?

Não dá né? Eu já imaginava.

Então vamos fazer o seguinte; Sabe aquele austríaco que prendeu a própria filha por 24 anos no porão da casa dele e teve filhos com ela? O que você faz com o seu bichinho de “estimação” (?) é muito pior…ele é de OUTRA espécie, que não se comporta como praga como você e eu.

Daria pra não agirmos como praga. Seria questão de desenvolvermos uma vida interior sem depender da aprovação alheia e sem nos alhearmos do todo do qual fazemos parte. Isso aumenta a boa autoestima!

Percebermos a nossa natureza ao invés de brigar contra ela.

Do jeito como estamos e na quantidade em que estamos, não dá pra crer que em 50 ou 100 anos isso seja possível, mas só será impossível se não começarmos.

Comecemos por nós, agora. Perdoemo-nos individualmente. Perdoemo-nos profundamente, aceitemos que temos compactuado com tudo isso por não termos visto ainda uma saída.

Só existe um jeito de aprendermos: errando, buscando o melhor e não nos identificando com o erro. Façamos o nosso melhor mas, pelo amor da existência, perdoemo-nos. É aí que começa a transformação.

Olhe-se no espelho e diga repetidas vezes:

Eu estou perdoado, sou digno do lugar em que vivo e vivo em harmonia com o todo.

Vamos saindo dos erros aos poucos, com percepção e consciência, sempre sentindo-nos perdoados, aceitos e integrados.

Quando você conseguir esse auto perdão, uma sensação maravilhosa de alívio vai tomar conta do seu ser…

daí por diante a sua própria consciência dirá o que fazer, e você fará com todo o amor porque já não estará mais agindo como praga.