As folhas pautadas onde Beethoven escreveu suas peças não são A música. A música soa NOS instrumentos e, se bem interpretada, segundo o conceito do compositor.
Conceito=conteúdo é tudo o que o artista quer dizer, expressar. Tanto melhor é essa massa sonora se o intérprete e/ou regente conseguiu absorver o conceito do compositor e expressá-lo do advérbio do som.
Quanto vale a partitura das músicas de Beethoven?

O preço do papel pautado, da tinta e da pena vendido pela papelaria onde ele comprou.

Pode valer também o montante financeiro que a alucinação egocêntrica-possessiva de uma cultura decide avaliar o quanto é importante alguém ter essa partitura para si. Uma partitura original (manuscrito) pode ser vendida por cinco ou seis dígitos de dólar.

O que vale a vibração atmosférica produzida por instrumentos executando primorosamente uma obra de Beethoven?
O preço do ingresso para ver a Philarmonica de Berlin fazê-lo. Não, vale mais.
O preço do CD com a gravação. Não, vale mais.
Vale nem um tostão se você mesmo executá-la satisfatoriamente em seu piano. Não, vale mais.
Se você não gosta de Beethoven aí não vale nada mesmo.

O valor da obra de um artista não é mensurável em moeda, seja qual for.

A obra não é o manuscrito, não é o objeto. É o conceito expresso nela.

Até agora, só obviedades

Não é tão óbvio o fato de que a desatenção ao valor do conceito das obras, típico do SEC XXI, está relegado quase ao esquecimento, prevalecendo quase só o valor da posse; assim a disputa pela propriedade do objeto da obra forma um mercado. Que não tem nada a ver com arte mas com o status social (e não artístico) do proprietário.

O objeto artístico (manuscritos, quadros, esculturas, livros, etc) facilmente pode adquirir valor de mercado tanto maior for a voracidade de posse sobre aquele OBJETO.
Pode-se fazer de qualquer coisa um produto de mercado. É bom ressaltar que nada contra eu tenho em relação a isso. Nem contra nem a favor, é outro “universo” que não o artístico.

O que quero trazer à luz da lembrança é o fato óbvio, porém quase esquecido, de que se pode desfrutar da comunhão com o conteúdo de uma obra, seja qual for o objeto em que ela se encontra disponibilizada.

O conceito da obra é perceptível na razão direta da sensibilidade do observador e também do grau de despoluição cultural em que se encontra. Lembrando que cultura pressupõe informação instalada na vida; Dependendo do QUE o observador instalou em sua vida e do que ele NÃO instalou, a observação será uma ou outra. Pode ocorrer de alguém ouvir uma sonata de Beethoven e se lembrar imediatamente SÓ do quanto pagou para assisti-la no teatro com tal pianista. E pode acontecer também de alguém ouvir uma sinfonia de Beethoven no rádio e se revoltar por que omitiram algumas partes dela, o que pressupõe informação e cultura por parte desse observador.

A boa notícia é que, se alguém está ocupado com o seu próprio aperfeiçoamento cultural, não vai depender da forma do objeto da arte para aproveitá-la. O aperfeiçoamento tecnológico de hoje permite que tenhamos à disposição e bem acessivelmente excelentes reproduções em quantidades fenomenais. Não importa se é uma gravação em vinil com chiado ou se é uma foto não muito definida de um quadro…se o observador puder ter acesso ao conteúdo, perfeito.

Portanto se você ouvir falar que roubaram um quadro “valiosíssimo” de um museu e que, posteriormente, foi destruído, isso não é tão grave se se tiver boas fotos ou cópias bem feitas, a não ser pelo fato de privar a coletividade de ter acesso ao objeto original da obra. O valor artístico da obra é “inroubável“.

Beethoven não ficaria nem um pouco triste em saber que seus manuscritos se perderam depois que a obra foi editada.