Todo mundo tem alguma coisa a aprender com todo mundo. Toda relação traz e leva lições.

Professor ensina aluno, mas aluno também ensina professor, amigo ensina amigo, pais ensinam filhos, filhos ensinam pais, mestres ensinam discípulos, discípulos ensinam mestres, mulher ensina marido, marido ensina mulher, vizinho ensina vizinho, funcionário aprende com patrão, patrão aprende com funcionário, cliente com fornecedor, fornecedor com cliente, povo aprende com o governo e governo aprende com o povo…

Nem sempre o professor de matemática ensina só matemática. Sem perceber ele pode estar ensinando, também péssimos hábitos de higiene, erros de linguagem, boa ideias filosóficas, humildade, arrogância…etc.

Há um engano generalizado que leva pessoas a terem certeza de que, só pela posição hierarquicamente superior que ocupam, apenas o que elas falam ou escrevem é o que está ensinando.

Isso poderá no máximo instruir (condicionar comportamento) de acordo com a autoridade de quem ensina sobre quem deve (por obrigação ou submissão) aprender. Nesse caso não há aprendizado, há instrução, o dever de que, diante de tal pessoa, se deve agir assim ou assado. Estamos falando aqui de mero exercício de poder, de constrangimento, que fatalmente gera um rebanho de puxa-sacos ou rebeldes.

Como o homem vive ainda na era da guerra, da destruição, da competição, na pré-histórica e grotesca forma de se relacionar, (pervertendo sua vocação básica que é a de ser uma relação pacífica e construtiva, quero crer) quase todas as relações estão contaminadas por essa compulsão de poder, de domínio. Assim encontra-se, até mesmo nas relações que poderiam ser pacíficas, formas de transmissão de conhecimento destrutivas.

Amigo1- Assessoria escreve-se com “c” e dois “s” ?

Amigo2- Em que muquifo você estudou hein? HUA HUA HUA HUA HUA HUA. Meu, você tem diploma superior e não sabe escrever assessoria???? Você comprou diploma pela Internet? Santa ignorância!!!!!! Assessoria se escreve com dois “s” e dois “s”.

Seria menos traumático o Amigo1 procurar um dicionário. Ele aprendeu como se escreve assessoria, mas o que o Amigo2 ensinou também foi a intolerância, ensinou que quem não sabe escrever direito é indigno, passível de humilhação e chacota, é inferior. Ensinou que o não saber o torna um ser humano inferior. Aprendeu junto as duas coisas e toda vez que for escrever assessoria, consciente ou insconscientemente, vai lembrar sofrer a interferência desse conteúdo.

Se o Amigo1 for uma pessoa emocionalmente madura (o que é muito raro), vai ignorar a chacota, selecionar o que é bom na resposta (que assessoria se escreve com dois “s” e dois “s”) e ficar também com a lição que foi dada na resposta do Amigo2: A de que existem pessoas com baixíssima auto estima, que se consideram uma nulidade se não souberem tudo que esperam dela, pessoas que jamais se sentirão dignas, porque saber tudo é impossível e que por isso mesmo criam uma armadura, um personagem que as defendam de humilhações sociais e estão sempre prontas a agredir quem demonstra fragilidade ou ignorância, reforçando ainda mais a sua própria escravidão ao DEVER de saber tudo…coisa impossível. Pessoas que compraram a ideia de que se deve ser perfeito e, finalmente o pior, pessoas que vão morrendo asfixiadas dentro dessa armadura criada para esconder uma falsa fragilidade, falsa porque errar é humano e é o jeito mais eficaz de se aprender.

Ampliando do grafismo de palavras para toda a existência, a única forma que ensina mesmo, profundamente, efetivamente, substancialmente é o exemplo, é o que a pessoa ou instituição FAZ e não o que diz. Os pais de uma família, por exemplo, podem ser extremamente religiosos, frequentar assiduamente aos cultos, orar antes das refeições, fazerem caridade, serem castos e não pronunciarem jamais palavras de baixo calão, falarem diariamente em paz e perdão MAS se conservam amargura, mágoa, ressentimento, ódio ou sentimento de vingança em seus corações, É ISSO QUE ESTÃO ENSINANDO AOS FILHOS! Por mais disfarçados que estes sentimentos estejam.

O que ensina é o exemplo. Mas, notem bem, eu disse que o que ENSINA é o exemplo, o exemplo não condiciona nem determina. Cada um tem suas diferentes capacidades de fazer opções a cada momento. O exemplo fica como uma referência para o resto da vida, que pode ou não ser seguido. Cada ser tem pleno direito ao exercício de seus valores adquiridos ao longo de sua existência, que devem ser respeitados, principalmente por quem os tem, sem isso não há boa auto-estima.

Verifique em você mesmo o MODO como você ensina (forma É conteúdo).

Se tem delicadeza ao fazer uma correção no outro.

Se se coloca sempre no mesmo nível (humano/falível) em relação ao outro, tranquilamente.

Se é generoso com o erro alheio.

Para que tudo isso possa acontecer em harmonia, verifique o modo como você trata as suas próprias limitações, se com bom humor, humildade e paciência. Quando chegar nisso, poderá ensinar com eficiência e não traumatizar definitivamente seus aprendizes (além de estar ensinando a ensinar).