A poesia do meu trabalho

É o trabalho de fluir poesia em meio a um lodo de amargura.

É calar explicações e justificativas e cantar a verdade que, conscientemente, nem eu sei direito.

Não está na melodia nem na letra…mas no modo.

É, sem colocar o dedo em feridas alheias, lembrar das minhas, vivê-las com verdade e, assim, acariciar feridas abertas de outrem.

É viver um encanto onipresente, de tal forma a intimar a emersão do lodo e lembrar o outro que a alegria e a ternura são acessíveis e estão disponíveis.

É, literalmente, fazer amor sem tocar…até por que até o meu olhar está atrás de duas lentes de proteção contra a pessoalidade.

É divino e impagável ser tocado por um olhar, outrora descrente e solitário, com o encanto que, há pouco, estava à tona, apenas em minha alma.

Pouco se diz a muitos

Muito só se diz a poucos

Assim, no modo que imprimo às letras e melodias, vou fluindo esse muito que o divino me passa…

aos poucos que estejam sedentos deste indizível tesouro.

Para os muitos, ainda não atentos para esta realidade, fica o barulho organizado da música simplesmente…Isto é o que eu penso numa abordagem bem imediata…mas a longo prazo (e isso já aconteceu várias vezes) o toque delicado e constante do amor no cantar, derruba couraças, abre os corações e traz o ser à luz de si mesmo.

A poesia do meu trabalho atravessa barreiras e classes sociais, culturais, raciais, econômicas e religiosas.

As reações são as mais diversas…o que me encanta é que a ação é a mesma. Encantar,

“magnetizar”, “anestesiar” para lembrar que, dentro de si, cada um tem um paraíso de paz, felicidade e amor.

A poesia do meu trabalho pode fluir graças à solidão na qual eu o exerço. Não há dispersão de energia com parceiros, nem técnicos, nem empresários, nem mesmo com o público. Na solidão (em meio à multidão) é mais fácil não perder o contato com a essência. Depois que se está essencializado, tanto eu quanto o público, aí sim, a troca é plena.

Numa relação onde a afinidade de essência está ausente, a palavra é tudo (e não resolve nada). Quando a afinidade de essência está presente, a palavra não é nada (e tudo se resolve).

Por isso eu não gosto muito de cantar em um idioma que eu conheça. Gosto de cantar para o brasileiro que não sabe muito bem o inglês por que o que estou dizendo não está na letra da música. Prefiro que o meu modo de cantar suscite imagens e idéias na imaginação de quem ouve. Isso é mágico!

Essa é a poesia do meu trabalho!