No princípio a mídia servia a arte, agora o fragmento da arte serve à mídia.

O entretenedor tem o compromisso prioritário de agradar, seduzir e de ser entendido imediatamente, para sua obra ser COMPRADA. Para tanto, lança mão de recursos padronizados de linguagem, assim é mais seguro que seja entendido imediatamente. O entretenimento é imediatista. Por isso ele se ocupa PRIORITÁRIAMENTE com a COMUNICAÇÃO. Daí a “arte” popular (entenda-se do entretenimento) estar estribada na hábil mescla de fórmulas feitas, na cabeça do público. Aí, nesse setor, tem desde a publicidade até Jobim, que, por exemplo, se inspirava também nas harmonias de Chopin. Vide os primeiros compassos da música Insensatez que reproduz a harmonia dos primeiros compassos do prelúdio número 4 de Chopin. Isto para dar um único e óbvio exemplo. Chopin até usava menções a músicas folclóricas polonesas, mas o conteúdo de sua obra não se apoiava em menções e nem dependia delas para serem interessantes. O ato de entreter está atrelado à necessidade da VENDA de uma peça como PRODUTO. Daí ela ter que ser compreendida IMEDIATAMENTE. O entretenedor, que geralmente só faz isso na vida, torce pelo sucesso de vendas para que o público, a fábrica, a editora, o patrocinador, o anunciante (e, de preferência, todos esses juntos) continuem dando-lhe a sobrevivência. O entretenedor está voltado muito mais ou quase só para a diversão.

O artista tem como principal compromisso a EXPRESSÃO através do aprofundamento e evolução de sua linguagem, para que ela seja capaz de expressar coisas até então impossíveis de serem expressas ou não tão profundamente expressas. Ou ainda, a simples, despreocupada e descomprometida expressão através de alguma forma considerada artística por muitos ou só pelo artista mesmo.

A ocupação é mais com o existencial, e menos ou nada com venda. O descompromisso com a venda dá-lhe uma decisiva liberdade que permite uma ocupação muito mais profunda com o ato da sua expressão e o conteúdo. O artista sabe que, talvez naquele momento, a sua proposta não seja entendida, assim como um filósofo, como Adorno, por exemplo. Mas a SUA própria convicção e inquietação existencial o leva, através de uma dedicação de corpo e alma, a expressar o que sente que tem que ser expresso… para alguém em algum lugar…mesmo que seja no futuro, ou talvez nunca. Tem alguns artistas que fazem isso sem essa consciência e tem outros que têm essa consciência. O artista está voltado muito mais para a expansão da consciência através da reflexão que sua obra proporciona.

Quem julga o que é arte ou entretenimento? Qualquer um com REPERTÓRIO cultural (não adianta nada só repertório de informação), certamente os pensadores, estudiosos e filósofos de 200 anos depois (aí já passou a efervescência da época, que embola a percepção) que percebem se aquela obra representou avanço no aprofundamento e na evolução da linguagem e, principalmente, da capacidade expressiva do homem, ou seja, se ela foi capaz de expressar coisas até então impossíveis de serem expressas ou não tão profundamente expressas até então.

A preocupação com a venda imediata de uma peça pode comprometer em muito a elaboração e o conteúdo da mesma, bem como sua potencialidade expressiva .

Subjetividade Cultural

Vejamos: Os Irmãos Augusto e Haroldo De Campos e Monteiro Lobato (artistas)

Para uma tribo indígena, O Sítio do Pica-pau Amarelo ou As Reinações de Narizinho podem provocar uma revolução existencial maravilhosa, já os Irmãos Campos, um constrangimento pela inacessibilidade.

Ambos os escritores, a meu ver, são artistas. Dá pra reler muitas vezes, mas a apreciação depende muito do preparo do público. Talvez um dia um índio venha a gerar repertório em si para compreender os Irmãos Campos.

Vejamos Glória Perez e Mauricio de Souza (entretenedores)

Para uma tribo indígena, Um Desenho Animado Da Mônica pode provocar uma revolução existencial maravilhosa, já O Clone, um constrangimento pela inacessibilidade.

Ambos os escritores, a meu ver, são entretenedores. Quantas vezes você assistiria O Clone ou leria um gibi da Mônica? A apreciação depende muito do preparo do público. Talvez um dia, um índio venha a gerar repertório em si para compreender Glória Perez.

É oportuno aqui o convite a uma reflexão a respeito de o quanto você está disposto a apreciar e absorver a cultura indígena. Sua resposta pode determinar se você é um ser cultural.

Dentro do universo do entretenimento encontramos entretenedores que se aproximam muito do comprometimento, da postura e do comportamento do artista. Eles se preocupam com a linguagem, com sutilezas, tentam superar fórmulas maçantes: Cole Porter, Chico Buarque, Beatles, Stylle Dan são exemplos interessantes. Mas as revoluções culturais que causam não são tão consistentes e/ou profundas quanto as que causam um artista.

Um dia eu conheci Beatles e Beatles era arte para mim. Quinze anos depois eu cresci e conheci bem Mozart, ai entendi que Beatles são entretenedores e Mozart artista.

Continuei crescendo e Mozart não deixou de ser artista e Beatles entretenedores.

Ouso completar o que disse o genial professor Jorge Coli, Professor de História da Arte/Unicamp.

Nem tudo que é entretenimento é arte, mas toda arte é entretenimento. Concordo e acrescento:

A arte pode seduzir, entreter, produzir prazer, mas PRINCIPALMENTE, também através desses três elementos, leva a uma profunda reflexão existencial e causa alguma revolução no observador: Van Gogh, Bach, Schöemberg, por exemplo. Já o entretenimento não é tão capaz de tanta profundidade, amplitude e enriquecimento cultural. Nem por isso é desprezível. Só é outro universo.

Se é arte ou entretenimento, isso é uma questão subjetiva enquanto o observador não tiver capacidade de discernimento para perceber a diferença. É assim, nesse estágio de compreensão tudo é arte. Mas é um fato objetivo que você só percebe quanto mais cresce culturalmente e não só acumulando informação.

A resposta serve mais para definir você para o seu interlocutor e vice-versa, do que para explicar.

Já que, se ele for um ser culto, não será necessário explicar, ele entenderá, se não, não adiantará nada falar, pois para ele TUDO É ARTE.

É oportuno agora, início do século 21, que as pessoas interessadas em viver melhor, sejam menos informadas e mais cultas. A grande estratégia do poder é imbecilizar os consumidores pelo excesso de informação. Isso ocupa seu espaço interno impossibilitando a sua reflexão existencial, que é a grande viabilizadora de cultura.

Com informação você fica mais esperto.

Com cultura você vive melhor.