Amanhecia mais um dia na vida de Eriko. Ontem ele fez 25 anos. Levantou da cama sentindo-se especialmente bem. Não lembrava, mas pelo ótimo astral devia ter sonhado com os deuses da paz. Meio no automático foi à porta pegar o seu jornal. Olhou a primeira página mas não leu. Estava tão bem que nem queria saber de notícias, preferiu a janela do seu apartamento que recebia um sol maravilhoso e uma brisa de temperatura muito agradável. Eriko trabalha a alguns quarteirões de sua casa. Reflexivo antecipava que seria especialmente agradável essa rotineira caminhada. Não conseguia e nem queria pensar em nada, nesta manhã estava preferindo sentir o super bem estar. Chuveiro, café da manhã, roupa e elevador. Ao passar pela portaria cumprimentou, como sempre, o porteiro Sr. Osvaldo que o chamou para uma rápida conversa: Seu Ériko, vai ter reunião extraordinária dos condôminos. É que o síndico ouviu falar que o prédio precisa dar uma melhorada no sistema de segurança sabe como é né? muito assalto por ai, até deu no noticiário que anda tendo muito roubo nesse bairro. Pediram pra eu avisar o senhor, tá?
-Beleza ! respondeu Ériko. -Bom dia pro senhor. Uma sensação de insegurança começou a tomar conta da cabeça
de Ériko. Sentiu que precisava mudar de casa, de bairro, sei lá. Lembrou das preocupações da sua mãe com o local onde morava, dos insistentes convites para morar no mesmo prédio dela, do fato de que se sentia muito sozinho às vezes e que um prédio um pouco menos modesto, além de mais seguro, faria bem para a sua imagem. É, alí não tava mais legal. Ao sair do prédio cruzou o portão da saída da garagem de seu prédio e quase foi atropelado por um Toyota pilotado por ninguem menos que a vizinha do 112, gatíssima que nem sequer o cumprimentava. Ériko repetiu aquele pensamento que nunca queria calar: “Com o carro que eu tenho ela nunca vai me olhar”. Mais adiante viu o anúncio de uma financeira que dizia: “Pague suas dívidas já, com a gente sempre dá”. Ériko murchou a expressão e começou a fazer contas, o resultado foi mais tristeza. Ele devia um bom dinheiro. Nada que não pudesse pagar em alguns meses, mas só o fato de tê-las o desanimou.
O mau humor se instalou. Em seguida encontrou um amigo, o Fábio, saindo da farmácia e entrando no seu BMW. -Ériko!!! Saudade rapaz! Voce tá bem? Tentando disfarçar, disse Ériko com um sorrizo amarelo: – Tudo beleza. Lindo carro, heim? – Cara nem é tudo isso, enjoei, to de olho numa mercedes que é tudo de bom. Com essa mercedes a vida fica viável. Moral, mulherada, tá ligado? E Ériko responde: – É isso aí ! Pensou no seu Astra antiiiigo e ficou mal. -Beleza Ériko, agente se vê! Vai viajar no feriado? -Não, vou ficar, cara! – Beleza, se mudar de idéia a gente tá indo pra Angra. -Falou. Bom feriado – Até.
Com seus botões pensa Ériko: “Angra? ha ha ha Com que grana? Nunca!” Sentindo-se humilhado Ériko começou a achar o seu salário de U$ 2.500 um lixo. Sentiu-se um excluído pela felicidade, um indigno, um João Ninguém. Toca o celular, é a namorada. -Bom dia, diz ela num tom muito carinhoso. -Oi. Responde ele secamente, e ela preocupada: -Voce tá bem amor? -Tô. -Nossa, não parece! -Fala, que que ce quer? -Era só pra dar bom dia e dizer que eu te amo! -Tá…bom dia. Te amo tambem. -Tem certeza que ce tá bem? – Tá, tá tudo bem…já falei , que saco! – Tá bom, desculpa hein? Tchau. – Tchau.
Que que adianta me amar se não sabe nem se vestir direito. Mal fala o português corretamente, não dá nem pra apresentar pros amigos. Quer saber? Chega de ser trouxa. Chega dessa vidinha medíocre. Vou aceitar a promoção que o chefe propos, mesmo que eu tenha que vender a alma, trabalhar das 8h as 22h sábado e domingo, engolir sapo o dia inteiro, viajar dia sim dia não, ficar doente de tanto trabalhar mas vou ganhar os meus U$ 15.000 por mes e vou triplicar isso em seis meses. Não vou mais morar num prédio fuleiro, não vou mais ter carro velho, não vou mais ter dívidas, não vou mais sofrer humilhação de ninguem e nem ter namorada pobre e ignorante.

Em três anos:

Ériko foi morar num prédio de luxo com segurança, academia, piscina, quadra, sauna, salão de jogos, de festas mas o utilizava apenas como dormitório.

Comprou um mercedes mas gastou o preço do carro em consertos e revisões extraordinárias.

Casou-se com uma linda e apresentável moça que lhe deu dois filhos e falava fluentemente quatro idiomas: Portugues, ingles, frances e dinheires. Setenta por cento do salário de Ériko ia para ela e o amante dela. O resto ia para ele, para os filhos e para as despesas.

Por poder pagar tudo à vista Ériko não tinha dívidas…mas muitas dúvidas em relação ao caminho que escolheu.

Mais três anos e ele descobriu uma diabete.
Estressado, com vida de robô social e profissional sofreu um enfarte.
Exames e mais exames detectaram a causa do problema: stress emocional. Seguiu o conselho do médico e de um primo: procurou uma terapia. Teve sorte de achar uma terapeuta muito objetiva que na quarta seção disse claramente que ele tinha que mudar a vida, parar de escolher ser infeliz. Indignado com essa afirmação Ériko sumiu da terapia. “Essa é boa, agora o culpado sou eu. Vem viver aqui dentro de mim pra ver como é “fácil”. Fácil é falar pros outros o que eles devem fazer e ainda ganhar pra isso”.
Dias depois encontrou o primo numa festa. – E aí Ériko, como vamos de terapia?. – Caí fora meu. A mulher é louca. Falou na minha cara que eu escolhi ser infeliz! Cara eu nem sou infeliz, eu só to cheio de problemas , eu queria um relaxamento, coisa assim. -Tudo bem Ériko, é até legal um relaxamento, mas uma terapia te faz olhar pra você mesmo, rever os seus valores, conceitos e depois, cara, não dá pra mudar a vida se VOCÊ não muda.- Meu, isso é muito papo cabeça pro meu gosto. -Beleza. Mas ce tá melhor? – To…to melhor sim. Disse Ériko sem a menor convicção. Ériko não conseguia reunir isenção e nem coragem para se enxergar e desfazer o nó em que se meteu. Piorou muito.
Tornou-se muito agressivo, mal humorado e às vezes até ríspido com qualquer um com quem batesse de frente. A saudável sentença “Oposição amistosa” inexistia para ela. A sua secretária estava ficando com medo dele e do que poderia acontecer se ele surtasse. Com muito jeitinho ela recomendou uma vidente, mas preveniu: -Ela vê mesmo, vai direto ao assunto e não erra.
Sem mais opção e sentindo que estava em rota de colisão consigo próprio, lá foi o Ériko. Nunca havia imaginado, do alto de seus trinta e tantos anos que iria para numa vidente como último recurso para resolver seus problemas. Na sala de espera escondia o rosto atrás de um jornal de tanta vergonha. A cliente saiu da sala e chamou em voz alta: – Senhor Ériko. Ele levantou da cadeira, fixou a cara no chão e sem olhar pra ninguem entrou rapidinho na sala.
-Boa tarde, pode sentar, disse Hilda, a vidente e começou a falar detalhes mais superficiais da vida de Ériko qua mal a olhava nos olhos. Quanto mais ela acertava mais assustado e fechado ele ficava. A certa altura ela disse: – Escuta, se você não estiver gostando, pode ir embora e não precisa pagar, tá?

-Não, não, disse ele, pode falar, é que eu nunca vim numa vidente, eu não sei o que dizer.
-Não precisa dizer nada mas tambem não precisa ficar com medo de mim, eu não mordo, só falo. Agora perguntar se quiser. O que o trouxe aqui?
– Eu to cheio de problemas, tá parecendo que a minha vida perdeu o sentido, sei lá. Eu to mal. To mal de saúde, to mal no trabalho, quer dizer eu ganho bem mas não gosto do que eu faço, to mal com a minha família…tá tudo ruim.
– Bem Ériko, disse a vidente tirando cartas a cada comentário, lembra quando você fez 25 anos?
– Não, nem lembro.
– Pois é. Foi lá que a sua vida mudou de rumo. Voce tomou a decisão que te trouxe até esse estado horrível em que você está agora.
– Como assim? Voce também vai me dizer que eu sou o culpado?
Sem considerar essa pergunta Hilda continuou- Você acordou bem, estava um dia lindo, você nem quis ler jornal naquela manhã, lembra?
– To lembrando.
– Daí você encontrou o porteiro do prédio que te falou sobre uma reunião. Voce podia escolher entre aceitar o motivo da reunião e recusar aquele medo. Dai a moça que morava no seu prédio e que estava caidinha por você quase te atropelou pra te chamar a atenção, mas você preferiu interpretar que ela te desprezava, daí você viu um anúncio que oferecia um empréstimo e resolveu achar que nunca conseguiria pagar as suas dívidas, daí você encontrou o seu amigo saindo da farmácia e preferiu invejar o carro e a vida que achava que ele tinjha. Se tivesse perguntado o que ele foi fazer na farmácia nunca teria tido inveja dele. Dai sua namorada te ligou para falar de um emprego que ela viu para você e que seria uma mudança total para melhor na sua vida, mas você preferiu brigar com ela por estar humilhado sem nenhum motivo verdadeiro. Ela era o grande amor da sua vida, mas você não conseguiu ver porque você escolheu sim se focar na sua presumida miséria quando na verdade voce era um afortunado. Em seguida, com revolta no coração, você fez um pacto com a infelicidade que te trouxe até aqui. Desculpe Ériko pelo que eu vou te dizer: Você não era, mas se achava tão medíocre que foi exatamente no que a sua vida se transformou. Você projetou isso.
-Não pode ser verdade! Só porque eu fiquei com ódio de ser pobre Deus me castigou?
-Aí é que tá, tem muito amor e pureza no seu coração mas tambem tem muito ódio e castigo na sua mente. Por enquanto a sua mente está ganhando.
-Mas eu não queria essa vida que eu tenho agora, eu nunca quis isso!!!!
Hilda tirou mais umas cartas e disse: – Ériko, quer que eu diga como foi o contrato que voce assinou para a sua vida ficar assim?
– Eu não assinei contrato nenhum.
-Claro, você não assinou nenhum papel, fez pior, mentalizou com muita força. Naquele dia quando voce estava na porta do seu trabalho você voce desligou o celular e pensou bem assim: Que que adianta me amar se não sabe nem se vestir direito. Mal fala o português corretamente, não dá nem pra apresentar pros amigos, se referindo a sua namorada. Quer saber? Chega de ser trouxa. Chega dessa vidinha medíocre. Vou aceitar a promoção que o chefe propos, mesmo que eu tenha que vender a alma, trabalhar das 8h as 22h sábado e domingo, engolir sapo o dia inteiro, viajar dia sim dia não, ficar doente de tanto trabalhar mas vou ganhar os meus U$ 15.000 por mes e vou triplicar isso em seis meses. Não vou mais morar num prédio fuleiro, não vou mais ter carro velho, não vou mais ter dívidas, não vou mais sofrer humilhação de ninguem e nem ter namorada pobre e ignorante.
A única afirmação positiva que você fez foi ganhar dinheiro a qualquer custo. Parabens! Voce conseguiu. Está pagando com a sua saúde mas conseguiu. O resto foram afirmações negativas e isso não funciona para a felicidade. Você quis morar num predio não-fuleiro e conseguiu mas não aproveita. Não tem mais carro velho, mas gasta uma fortuna em manutenção, muito mais do que as pessoas que tem um carro igual ao seu. Não tem mais dívidas mas tem tantos gastos supérfluos que você nem consegue fazer o seu patrimônio. Você não sofre mais humilhação mas nem imagina a péssima sensação que você causa nas pessoas que estão em volta de você. Você se tornou uma pessoa desagradável, ninguem quer a sua companhia. E, por último, voce não tem mesmo mais uma namorada ignorante, mas está com uma mulher que não te ama. Tá vendo? Deu tudo cero! Do JEITO que você pediu.
Ériko encolheu-se na cadeira, apoiou a cabeça nas mãos e disse: – Entendi. A sua mente paralizou. Naquele momento ele sentiu como se estivesse em um filme de suspense/ficção científica. Vivendo uma realidade paralela, como se fosse um ator vivendo um papel em um filme que não acaba nunca.
Depois de dar um tempo a Ériko, Hilda disse: – Isso tem volta. Não é legal saber que você é o autor do roteiro da sua vida? Você ainda é muito jovem e mesmo que não fosse. Você precisa imaginar com alegria o que você quer e não imaginar com tristeza o que não quer.
Ériko ouvia tudo aquilo com um certo alívio apesar do choque em que estava.
Hilda continuou:- Nós precisamos mudar as cláusulas daquele contrato. Que tal?
– Como assim?
– Mudar a programação que você fez e que, infelizmente, deu certo.
– Quanto isso vai me custar?
– Bem mais barato do que o que você paga pelo médico. Não vai custar dinheiro. Você faz sozinho e se quiser.
– A primeira frase do seu antigo contrato diz: “Que que adianta me amar se não sabe nem se vestir direito. Mal fala o português corretamente, não dá nem pra apresentar pros amigos”. Que tal mudar para “Eu quero amar e ser amado por uma mulher que tenha muita afinidade comigo e em meio a muita plenitude e alegria no relacionamento” ?
-Parece bom. Diz Ériko.
-Mas que tal refinar um pouco? “Eu quero ser feliz no amor”.
– Legal.
-Ainda tem um probleminha nessa frase.
-Qual é?
– Ela está no futuro. Que tal? “Eu sou feliz no amor”
-Mas eu não sou.
– Ok! Se você diz que não é, então nunca vai ser mesmo. Se você diz “Eu sou feliz no amor” e é capaz de sentir essa felicidade, na imaginação, no seu coração, pronto, você já está em sintonia com a sua felicidade no amor. É isso que traz a sua felicidade. Quanto mais tempo você permanecer sintonizado com ela mais próxima ela estará.
– Então é aquela coisa de força do pensamento positivo?
– Não. Não é o pensamento, ele é só o apoio. É o que você sente, que atrai. Lembra quando você pediu tudo aquilo?
-Lembro.
-O que você estava sentindo quando pediu?
-Muita raiva, tava revoltado.
-Aí, veio tudo na vibração da raiva pra sua vida. Você pode pedir o que quiser que acontece. Mas acontece do jeito como você sentiu e não tanto como falou. Sinta a felicidade de ser feliz no amor e afirme “Eu sou feliz no amor”. Você tem que sentir antes e afirmar sentindo.
-Isso é magia?
-Não, é como as coisas funcionam.